Aleluia e Morte

Aleluia e Morte

Denise Santana Fon*

 

         Sábado de Aleluia. Madrugada de Aleluia. Pedro estremeceu na sua rede, o sonho fora mesmo terrível. Ergueu-se tateando ao encontro dos tamancos, acendeu o candeeiro e levantou-se da rede de algodão que ainda balançou de leve, sem gemer, nos armadores de ferro. E ele pensou nos armadores de ferro. Na escola, Pedro tinha ouvido falar de minas de ferro, jazidas de ferro, recordava em sua infantil dificuldade … Armadores de ferro. Ferro extraído de minas distantes … Fundido ele não sabia onde, por um operário qualquer, transformado em armadores, na fábrica … E Pedro tinha acabado de dormir suspenso nos armadores de ferro, dentro de sua rede de algodão.

         – Mas isto não tem nenhuma importância – pensa Pedro, dirigindo-se agora à janela. Abriu-a devagarzinho e viu que a madrugada ainda era de lua. Mas, apesar da madrugada de lua, o garoto viu que a barra do dia já vinha surgindo. Isto causou um estranho pulsar no seu coração de criança.

         – Como o pai está demorando! – dizia-se já inquieto na sua inocente inquietude de criança magra, nascida no campo, esperando o pai que não chegava.

         Desde a véspera que seu pai saíra cedinho para Cerro Verde em busca de comprador para a sua roça. Com o dinheiro da venda – tinha-lhe dito o pai, poderia comprar uma porção de teréns para a casa. Umas roupinhas para ele ir à escola, os livros que a professora vivia reclamando. Até uma alpercata de rabicho ele teria para ir à escola. Ia acabar aquele negócio de ir à escola de pé no chão. Mas o garoto via a barra do dia aparecer ao longe, naqueles pedaços de céu que ele não sabia o que era e se inquietava com a demora do pai.

         A manhã era manhã de roça e orvalho, era orvalho de campo e os galos que cantavam ao longe eram os mesmos galos de todos os dias, de todas as madrugadas, acordando os pássaros, os camponeses iguais ao seu pai, o sol iluminador do campo. A manhã de roça e a paz superficial e anêmica era a mesma de sempre na fisionomia dos homens que já começavam a cruzar os caminhos dirigindo-se para as plantações.

         Pedro chamou os irmãos menores. Pedro, em jejum forçado, com os irmãozinhos, seguia agora pelo campo a fora. Seu pai ainda não tinha voltado e aquelas lágrimas furtivas que ele descobrira nos olhos de sua mãe, ao sair com os irmãos para a igrejinha distante, tinham-no deixando pensando. Aquelas lágrimas estavam mesmo angustiando uma criança, andando sob o sol da manhã da roça, com os seus irmãozinhos, rumo à igreja. Ele não compreendia bem as coisas, mas nem por isso deixava de ouvir todos os dias da boca de seu pai, dos amigos do seu pai, palavras como “terra para a gente”, “reforma agrária”, “direitos do camponês”, essas coisas.

E Pedro via que os outros camponeses como o seu pai, viviam procurando por ele em casa, no campo, fazendo perguntas, e já ouvira até um deles tratar seu pai de “meu líder”. Mas ele não sabia o que era isto. Apenas que seu pai era um líder e, o pior de tudo, que sua vida corria perigo por ser um “líder”. Idéias confusas … Pedro sabia apenas que seu pai era bom e que era amado pelos outros camponeses e, principalmente, por ele.

         Manhã de roça, o orvalho beijando as flores e Pedro criança, Pedro de coração batido, caminhando para a igreja, Pedro inocente, Pedro de estômago vazio, seguia com os irmãos para a igreja. E hoje tinha catecismo e ele ia ouvir do sisudo padre o “não matarás” de sempre. Da professora mesmo, ele já ouvira palavras bonitas. Até ainda se lembrava que ela tinha dito, um dia, que ele devia “amar” e respeitar o próximo.

         Estrada sinuosa, cansativa, E lá pertinho, a curva de todos os dias. Não a curva de todos os dias, não. O que era aquilo ali na curva da estrada? Pedro se perguntava o que era aquilo. E pouco a pouco, à medida que os passos avançavam, agora mais próximos da curva, as mesmas perguntas esquisitas se amontoando no cérebro infantil de Pedro. O que era líder? Por que seu pai não havia voltado? Que história era aquela de perigo para a vida dele? Por que era simplesmente um líder? Se ele nem sabia o que era aquilo? Ali esta a curva e, projetando-se para fora dela, um estranho pé humano se agigantava. Pedro assustado, com os irmãos, pulou para a frente e, baixando os olhos, viu tudo.

         De olhos arregalados, brilhando dentro do sol, um terrível esgar de dor na boca, o peito varado de balas, ali estava o seu pai.

         As crianças, chorando alto, correram para o corpo ensangüentado, abraçaram em prantos o cadáver ainda quente e Pedro criança maior, com aquele pranto silencioso dos heróis nascido de heróis. Pedro sorriu baixinho. Pedro lembrava-se de algo que estava acima de sua própria dor de criança abatida, de menino sem pai, em plena meninice. Pedro se lembrava de alguma coisa que tinha ouvido.

         Paz na terra, alegria na terra molhada de orvalho e de sangue.

         Sábado de Aleluia! Os homens, na sua hipocrisia de homens de todos os tempos, também tinham morto o Salvador e ainda esperavam por Ele, ressurecto, para mata-lo de novo…. As paredes do Campo Santo erguiam-se brancas e tenebrosas ao longe. Uma chuva fina e fria caia persistente.

         E ao longe uma criança caminhando de coração inocente. Uma criança julgando-se anjo, procurando ressuscitar o pai.

         Numa cova rasa, sombreada apenas por uma simples cruz de madeira, um  pequenino vulto movendo-se:

         “Aleluia!” , “Aleluia!” É o grito claro, é o grito rompendo as estradas, escalando os canaviais, saindo da boca de uma criança pobre, ajoelhada no túmulo de um herói, no túmulo de um líder que ele não sabe o que é, procurando ressuscita-lo, gritando, gritando, dentro do campo, na manhã de sol, na dor do campo.

         Aleluia! Aleluia! Não matarás! Amar e respeitar o próximo! São os gritos desconcertados no delírio infantil de uma criança ajoelhada no túmulo do pai, morto, enterrado em cova rasa, num cemitério distante, na estranha terra dos homens vivos.

 

                                                   

* Este conto foi escrito em homenagem ao líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em Sapé, Paraíba, e publicado originalmente no jornal paraibano “O Norte”, do grupo dos Associados.