Aos educadores

Em 2014, completaram-se 50 anos do golpe civil-militar que instituiu um regime ditatorial no país. Esse período tem sido rememorado em diversos filmes, livros, documentários e atos para contestar as arbitrariedades da ditadura. O governo federal criou a Comissão Nacional da Verdade para apurar os crimes cometidos contra os opositores do regime.

Apesar de haver muitas iniciativas para recuperar a memória daquele período, o Brasil ainda desconhece muito dessa história. As novas gerações sabem pouco e muitas vezes de forma parcial sobre um período tão intenso e que deixou tantas marcas na vida de muitos brasileiros.

Se a população de forma geral não conhece sua história recente, a situação é ainda pior quando identificamos a precariedade com que o assunto é tratado na educação básica, que tem como responsabilidade garantir o estudo da História do Brasil para a formação da cidadania. Os livros didáticos, por melhores que sejam, são muito limitados como fonte de informação, abordam o assunto de forma superficial e só nas últimas páginas, quando geralmente não sobra mais tempo no ano letivo.

As escolas precisam e merecem ter acesso a um material de qualidade e completo sobre esse capítulo da história de nosso país. E é para isso mesmo que existe este portal!

Ensino de História

História e direitos humanos

O conhecimento da História contribui para que cidadãos e cidadãs compreendam e reflitam sobre os processos sociais, políticos e culturais do país que marcam a atualidade. Para que possam desempenhar seu papel político, exercer sua cidadania de forma ativa e consciente e, assim, fortalecer a prática democrática.

O ensino de História se refere ao estudo das experiências dos seres humanos ao longo do tempo e deve criar condições para que os estudantes sejam capazes de refletir e tomar posição sobre diferentes temas estudados, com base em seu espírito crítico, percebendo-se também como agentes históricos de um processo em constante transformação. Trata-se de compreender os sujeitos históricos em uma dimensão coletiva, ou seja, não apenas como indivíduos isolados, mas como parte de uma sociedade que se insere em um contexto histórico específico, complexo e sempre imerso em conflitos de interesse.

O ensino de História não pode se isentar da tarefa de formar cidadãos capazes de compreender o significado das lutas pela conquista dos direitos humanos, sendo o primeiro deles a igualdade em sua acepção mais ampla. Assim, os fatos e os processos históricos devem ser abordados também pela ótica dos direitos humanos.

A defesa da equidade de direitos envolve o reconhecimento daqueles que por razões históricas sofreram discriminação, foram inferiorizados e sofreram violações dos diretos da pessoa humanaConforme indica o 2º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”. Refere-se à defesa da liberdade e do direito de lutar por aquilo em que se acredita e de se rebelar contra o que não merece crédito. Nesse sentido, o estudo da História deve valorizar atitudes éticas e cidadãs, tomando como premissa a necessidade de defender, antes de mais nada, a dignidade dos indivíduos organizados em sociedade.

No portal Memórias da Ditadura, a História é recuperada à luz dos direitos humanosDalmo Dallari define direitos humanos ao dizer: “Existe uma dignidade inerente à condição humana, e a preservação dessa dignidade faz parte dos direitos humanos. O respeito pela dignidade da pessoa humana deve existir sempre, em todos os lugares e de maneira igual para todos. O crescimento econômico e o progresso material de um povo têm valor negativo se forem conseguidos à custa de ofensas à dignidade de seres humanos. O sucesso político ou militar de uma pessoa ou de um povo, bem como o prestígio social ou a conquista de riquezas, nada disso é válido ou merecedor de respeito se for conseguido mediante ofensas à dignidade e aos direitos fundamentais dos seres humanos.” Dalmo de Abreu Dallari. “O que são direitos humanos”, disponível em: Portal Direitos Humanos na Internet (DHNET). , abordando um momento da História do Brasil em que foram cometidas muitas atrocidades, às quais a escola deve dar relevância. É preciso que se conheça, para que nunca mais aconteça.

O estudante como sujeito do seu tempo

A História procura explicar as transformações e permanências da experiência humana ao longo do tempo, o que denominamos processo histórico. Ao estudar esse processo, os estudantes devem desenvolver a capacidade de analisar a vida social com base na leitura do passado, ou seja, devem ser capazes de pensar historicamente, compreendendo as especificidades de cada um dos períodos.

Para desenvolver o pensamento histórico é necessário que os estudantes sejam capazes de identificar grandes períodos e processos históricos, mas também que sejam leitores competentes e adquiram suficiente espírito crítico para analisar textos e documentos no contexto em que foram produzidos. Trata-se de aprender a identificar e desenvolver argumentos, estabelecendo relações entre as ideias e os eventos históricos.

Construir um pensamento histórico nos permite reconhecer que não vivemos em um eterno presente, mas que estamos vinculados a um passado; e que compreender quem somos hoje significa olhar para trás e descobrir os elos que nos ligam a essa história. Para tanto, é necessário também ter noções básicas da cronologia e conhecer a organização social e o modo de vida dos seres humanos em diferentes épocas e lugares.

A proposta do portal Memórias da Ditadura não é tratar de uma História enterrada e empoeirada, que poderia levar os estudantes a questionar: “para que serve estudar isso que já se foi?”. Pretendemos oferecer um conjunto de conteúdos que aborde os temas do período da ditadura e faça sempre ligações com os dias atuais, identificando as marcas do passado no cotidiano.

A perspectiva de estabelecer relações entre o presente e o passado não é só porque o passado explica o presente, mas porque o passado oferece uma grande variedade de experiências que nos permitem fazer uma reflexão mais complexa sobre o que ocorre no presente.

As relações entre passado e presente propiciadas pelo ensino de História também instrumentalizam a construção do futuro, isto é, dão subsídios para se tomar decisões, fazer escolhas e se posicionar, possibilitando e incentivando que o jovem se reconheça também como protagonista de seu tempo e assuma posições sobre o presente com base na reflexão sobre o passado.

Os conteúdos presentes no portal Memórias da Ditadura permitem que se criem muitas possibilidades de problematizar e propor reflexões sobre variados temas relacionados à recente História brasileira na sala de aula.

Esse conhecimento sobre o período da ditadura militar suscita diretamente reflexões sobre o momento atual, ainda que não seja possível fazer uma transposição imediata entre o passado e o presente, criando o risco de se fazer uma leitura anacrônica da História. No entanto, com base em conceitos como ditadura, democracia, revolução, transformação social, socialismo, capitalismo e vários outros, podemos refletir, estabelecer conexões e efetuar análises sobre o presente, com base na história vivida.

Essa é uma parte da História do país que ainda tem diversos ecos no presente, uma vez que muito está por ser revisto e explicado. É uma história ainda viva e atual.

Espírito crítico e tomada de posições

O estudo de História é uma grande oportunidade para que os estudantes desenvolvam sua capacidade crítica e sejam capazes de tomar posição e fazer escolhas como pessoas ativas na sociedade. É essencial que saibam conduzir suas decisões com base em posições sustentadas em argumentos e valores. O estudo de História possibilita que se coloquem em destaque os diferentes projetos de sociedade e os posicionamentos de grupos sociais em determinados períodos, sendo necessário realizar a crítica para analisar o significado dessas posições em seu tempo.

O conhecimento histórico é por natureza subjetivo. Existem diferentes interpretações sobre um mesmo período ou evento. Na História não há certo ou errado, mas também não há isenção. Por razões diversas, que se relacionam com determinada concepção de mundo e de política, cada um de nós pode concordar mais com um autor ou com outro e se posicionar.

Para tomar uma posição é preciso ter espírito crítico. Mas o que isso significa? Quer dizer que se deve ir além do senso comum e definir argumentos favoráveis ou desfavoráveis a uma linha de pensamento ou outra, com base nos conhecimentos já produzidos, na análise de fatos ou em pesquisas que sejam realizadas com critérios adequados, a partir de determinados valores, considerando os direitos humanos e fazendo escolhas na vida social.

Abordagem interdisciplinar

O estudo de História é uma atividade interdisciplinar, uma vez que os conhecimentos relacionados à matéria se relacionam com outros campos das ciências humanas, como Antropologia, Sociologia, Política, Geografia e Filosofia.

Considerando que os conhecimentos são inevitavelmente interdisciplinares, não se pode limitar a construção dos aprendizados escolares apenas aos estudos por disciplina, sob o risco de criar visões fragmentadas e artificiais sobre o mundo vivido, que não são aplicáveis à realidade. Aprender História implica pensar antropologicamente, analisar aspectos sociais, políticos, filosóficos e geográficos; utilizar conhecimentos para interagir com a arte e a ciência historicamente; e observar a língua portuguesa não só como instrumento de estudo, mas como recurso para a compreensão dos eventos históricos.

Este portal abre também a possibilidade de se criar propostas e projetos de estudo com base em diferentes linguagens, de maneira interdisciplinar. Pode-se recorrer a textos relacionados aos diferentes momentos históricos e também a vídeos, imagens, e áudios que se colocam como documentos que precisam ser conhecidos, criticados e interpretados por alunos e professores, em um processo de construção de pensamento histórico sobre o período. Muitos conteúdos podem ser trabalhados de maneira conjunta com diferentes áreas como Língua Portuguesa, Geografia, Artes e outras.

No entanto, ao elaborarmos propostas interdisciplinares devemos ter o cuidado de não sugerir apenas atividades estanques, somente amontoando os conhecimentos das disciplinas. Para que uma proposta interdisciplinar tenha efetividade, é preciso criar um problema comum a todas as disciplinas envolvidas para que elas possam enfrentar juntas a sua resolução.

Diferentes fontes de informação

Fontes históricas

No portal Memórias da Ditadura foram incluídos muitos documentos históricos relacionados ao regime militar. Deve-se ter claro que o documento histórico é todo e qualquer material produzido no período, é uma fonte primária, objeto precioso para o historiador. São exemplos de fonte os escritos produzidos em diferentes contextos e gêneros, mas também as fotografias, obras de arte, vídeos, depoimentos orais e objetos da cultura material.

Para aprender História como se entende aqui é necessário não apenas ler sobre eventos, mas entrar em contato com documentos para analisá-los, conhecer suas origens, o momento em que foram produzidos, por quem foram produzidos, qual era a intenção, qual era o contexto – enfim, equivale a se colocar em um determinado contexto e entender o significado do evento histórico. A partir daí, é possível analisar diferentes pontos de vista e se posicionar.

Os documentos históricos não devem ter uma função meramente ilustrativa em sala de aula, mas devem ser usados como instrumento didático central para o processo de ensino e de aprendizagem. O ensino de História a partir do trabalho com fontes documentais coloca os alunos em contato direto com as marcas do passado e não apenas com as versões já produzidas e acabadas. Abre a possibilidade de reflexão e de interpretação individual e coletiva dos fatos.

Textos

Um dos grandes desafios colocados para os professores é o de obter êxito no processo de letramento e formação dos alunos, para que sejam leitores no sentido pleno, ou seja, que consigam observar, compreender, interpretar e formular ideias próprias com base nos conteúdos históricos. Denominamos como texto todo e qualquer material que retrate a experiência humana em diferentes épocas. Pode ser o texto escrito ficcional ou não, iconografia, canções, objetos da cultura material e depoimentos orais, entre outros. Também é fundamental desenvolver habilidades como descrever, comparar, analisar, sintetizar e relacionar.

Não se trata apenas de propor a leitura e a memorização dos muitos textos e documentos, como ocorre em vários livros didáticos, mas de estabelecer as conexões entre os diversos elementos, construindo interpretações e análises sobre o período.

A História e as Ciências Humanas em geral não podem prescindir dessa tarefa, uma vez que a leitura e a escrita são recursos privilegiados para tanto, como ocorre com os conteúdos deste portal. Para compreendê-los, é preciso frequentemente recorrer à estratégia de leitura de textos e exame de imagens.

Uso do portal em sala de aula

O que você pode encontrar no portal Memórias da Ditadura:

Narrativas cronológicas de todo o período distribuídas em três minidocumentários e em uma Linha do Tempo;

Diversas áreas que descrevem a atuação do governo ditatorial em seu processo de institucionalização, de repressão e seu contexto internacional. São abordados também os variados movimentos de resistência e as biografias dos que neles atuaram, e a intensa vida cultural que se enredou na oposição à ditadura nas diferentes formas de manifestação artística. O portal traz à tona a memória das várias formas de expressão daqueles que resistiram ao regime totalitário;

Em uma abordagem baseada nos direitos humanos, existem áreas com a finalidade de homenagear os mortos e desaparecidos e apresentar a Comissão Nacional da Verdade;

Há também uma área interativa, na qual é possível visitar mapas, com marcos de três tipos: lugares onde até hoje se homenageiam os ditadores; lugares que devem ser preservados, pois marcaram nossa História nesse período; e lugares presentes em depoimentos pessoais trazendo lembranças afetivas dessa época;

Todas as áreas são compostas de hipertextos, isto é, de textos que possuem links para outras áreas do portal ou para outros sites, ampliando assim a possibilidade de pesquisa e o acesso aos conhecimentos.

A partir desses conteúdos – apresentados na forma de textos, vídeos, imagens, áudios, obras de arte, documentos históricos, infográficos – é possível construir diferentes abordagens para desenvolver atividades educacionais junto aos alunos, a depender dos objetivos, possibilidades e potencialidades de cada situação. As atividades sugeridas foram pensadas prioritariamente para os anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, o que não quer dizer que não possam ser utilizadas, com as devidas adaptações, para as séries iniciais do Ensino Fundamental, para a Educação de Jovens e Adultos e em outros contextos de educação não formal.

Nesta área, existem orientações gerais para o uso do portal na educação, além de doze sequências didáticas sugeridas para serem realizadas nas salas de aula, a partir dos conteúdos disponibilizados pelo portal Memórias da Ditadura.

Você pode encontrar também projetos elaborados por professores de diferentes localidades, que estão disponíveis no item “Boas experiências”. É um espaço para a troca de experiências entre educadores que estão desenvolvendo projetos com essa temática. O Vlado Educação, frente de educação em direitos humanos do Instituto Vladimir Herzog, desenvolveu este portal junto com uma grande equipe de consultores e estará mediando a comunicação entre todos os educadores que estiverem interessados em levar até seus alunos materiais e atividades que propiciem o conhecimento desse período de forma viva, atual e na perspectiva dos direitos humanos.

Como você pode utilizar as sugestões de atividades

As atividades sugeridas estão organizadas na forma de sequências didáticas que propõem caminhos para a utilização dos conteúdos do portal em sala de aula. São sugestões de atividades estruturadas a partir de finalidades definidas e sistematizadas em projetos que podem ser adaptados e desenvolvidos de forma articulada e interdisciplinar, a depender da realidade de cada escola.

A ideia é que essas sequências didáticas contribuam para seu planejamento, que pode ser pautado unicamente em cada uma delas, na composição entre atividades das diferentes sequências apresentadas, ou ainda mesclando com atividades que já costuma realizar ou que sejam criadas especificamente para compor esses projetos.

Para dar início a seu planejamento, é importante ter clareza de seus objetivos e, assim, determinar os conteúdos a serem trabalhados. Você pode decidir que vai abordar o tema da ditadura pelo viés da produção artística do período e isso determinará as atividades a serem realizadas e como seus alunos irão navegar no portal. Mas você pode escolher outro caminho, por exemplo, abordar a repressão e os movimentos de resistência, ou ainda constituir vários grupos na classe e cada um trabalhar com um aspecto histórico para que no final sejam todos compartilhados. Enfim, são inúmeras as possibilidades.

Alguns aspectos dos conteúdos históricos apresentados neste portal devem sempre ser considerados em seu planejamento e explorados nas atividades, ainda que em algumas situações seu trabalho esteja mais voltado para um ou outro aspecto.

A visão mais ampla do período pode ser garantida pela exibição dos minidocumentários e pela pesquisa/navegação nas diferentes áreas do portal. Por exemplo, se a sequência didática planejada tiver a opção de abordar o período pelo viés do movimento estudantil, é importante que ele seja inserido dentro de um contexto maior da conjuntura do período ditatorial;

O domínio da cronologia do período pode ser explorado na Linha do Tempo e nos minidocumentários. Ainda que conhecer a cronologia não seja o eixo principal do trabalho na disciplina de História, é um importante instrumento para uma compreensão dos processos históricos. Cada sequência didática inclui o período central em que está focada a proposta;

O aprofundamento de temas escolhidos, pesquisando dentro das áreas do portal e nos links externos com outros sites;

A memória e as violações dos direitos humanos, abordadas mais especificamente nas áreas Repressão, Memória e Verdade, Mapas, Biografias da Resistência e Memorial dos Mortos e Desaparecidos;

O conhecimento dos movimentos de resistência apresentados;

O estabelecimento de relações entre passado e presente, isto é, do que aconteceu nesse período com questões atuais;

A utilização dos diferentes recursos do portal como vídeos, áudios, imagens, obras de arte, etc.

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