Cinema de retomada

Com o fim da Embrafilme, fechada pelo governo Fernando Collor em 1990 em nome da austeridade de gastos do Estado e da valorização do livre mercado, o cinema brasileiro virtualmente acabou. Não se trata apenas de força de expressão, e sim de um fato estatístico incontestável. Em 1992, apenas um filme brasileiro de longa metragem estreou no mercado.

Com a queda do governo Collor, a partir de um grande movimento político e social contra a corrupção, a situação do cinema começou a melhorar. O governo Fernando Henrique Cardoso criou leis de incentivo e captação de recursos para viabilizar o cinema, estimulando o patrocínio privado à base de renúncia fiscal para produzir filmes brasileiros.

Iniciou-se o chamado “cinema da retomada”, depois de anos de crise. O ritmo de produções ficcionais e documentais aumentou, estabelecendo, em muitos casos, parcerias com as grandes emissoras de televisão, sobretudo a Rede Globo. Mesmo sem atingir os níveis de público dos anos 1970, quando esteve no auge da popularidade, o cinema brasileiro renascia das cinzas.

O fim do cinema brasileiro e a retomada

Boa parte dos novos sucessos de público tratava da ditadura militar. A partir de 1995, os filmes sobre a guerrilha e a repressão passaram a constituir quase um subgênero ficcional, normalmente sendo abordadas pelo viés do drama ou da aventura. O cinema documental também manteve seu olhar sobre o período, apontando para uma necessidade de esmiuçar temas e personagens dos anos 1960 e 1970, principalmente na área da política e da cultura.

Percebe-se nesses filmes a afirmação de uma memória crítica sobre a ditadura, ora de cores mais liberais, como em O que é isso, Companheiro? (Bruno Barreto, 1997), ora de viés esquerdista, como em Lamarca (Sergio Resende, 1995). No primeiro, a violência em si é condenada, independentemente de se é vinda de guerrilheiros ou de torturadores, o que rendeu uma grande polêmica junto a historiadores e ex-guerrilheiros. O segundo, embora tenha desagradado os setores militares, pela abordagem heroica do capitão-guerrilheiro, agradou amplos setores das esquerdas.

O cinema ficcional brasileiro explorou o tema em diversos momentos, quase sempre denunciando o isolamento dramático dos guerrilheiros, a violência abjeta da tortura e a alienação da sociedade. Temos aí uma síntese da memória que o cinema veicula sobre a ditadura, o que obviamente poderia ser colocado em perspectiva, posto que a reflexão política fica sempre em segundo plano, em prol de virtudes morais de protagonistas e antagonistas, ou a falta delas.

Filmes como Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e O ano que meus pais saíram de férias (Cao Hamburguer, 2006) propuseram outras formas de abordar o período. Eles enfatizam, respectivamente, a crise social produzida pela modernização autoritária e excludente, e o olhar da criança, filha de guerrilheiros, sobre os anos de chumbo.

O cinema documental brasileiro, por sua vez, ampliou temas e abordagens sobre a ditadura, conseguindo nos últimos anos grande sucesso de público e crítica. Foram abordados os aspectos culturais do período (O Sol – Caminhando contra o vento, de Tetê Moraes e Martha Alencar, 2006; Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, 2010; Simonal, ninguém sabe o duro que dei, de Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel, 2009), a guerrilha, a memória dos guerrilheiros e familiares (Marighella, de Isa Grinspum Ferraz, 2012; Hércules 56, de Silvio Da Rin, 2006; Caparaó, de Flávio Frederico, 2006; Repare Bem, de Maria de Medeiros, 2012), os colaboradores do regime (Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, 2009), o apoio americano ao golpe de 1964 (O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares, 2013).

O cinema documental, e mesmo o cinema ficcional, tem tido um protagonismo rico em relação às revisões histórico-historiográficas e às batalhas de memória em torno do regime militar, que parecem estar muito longe de um ponto de acomodação na sociedade brasileira.