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Elias Rodrigues Moura

As reuniões eram lá em casa
Meu pai chamava-se Manoel Gomes de Moura e foi militante do partido comunista desde muito jovem. Lembro, apenas, dos acontecimentos ocorridos a partir de 1954 quando meu pai participava de reuniões clandestinas, algumas com a presença de Luís Carlos Prestes e muitas ocorridas em nossa própria casa. Numa das vezes vi que um padre estava na reunião, que começava, geralmente, por volta de meia noite e se estendia até às três da manhã. Perguntei a meu pai sobre o padre e ele não me deu muitas explicações; apenas me pediu pra ficar calado e não falar nada pra ninguém. Vivíamos sob o regime Vargas e era quase tão perigoso como no militarismo. Muito tempo depois ele me contou que aquele padre era o Prestes disfarçado. Se fosse descoberto, correriam riscos, tanto o Prestes quanto os outros participante da reunião.
Com a morte do Getúlio e a eleição de Juscelino houve um período de “trégua”. Depois veio a eleição do Jânio (que era tolerante com o PC) e em seguida a renúncia, o que piorou muito a situação pra todo mundo. Com a posse do Jango começaram as perseguições, até que estourou a fatídica revolução de 1964.
Os militantes do partido comunista, como meu pai, eram verdadeiros nômades pois não podiam se fixar em casas ou lugares por muito tempo. De 1954 a 1972 moramos em dezenas de casas em muitos lugares diferentes como: Pacatuba, Fortaleza, Belém, Santarém, Faro, Parintins, Santarém novamente, Fortaleza de novo, Belém e outra vez mais Parintins. Na cidade de Parintins onde nos fixamos por mais tempo, meu pai criou uma indústria de redes, tapetes e linha de pesca, que produzia toneladas de mercadorias por semana e gerava 114 empregos com carteira assinada e mais de 40 trabalhadores indiretos que faziam o acabamento e a embalagem das mercadorias em suas próprias casas. Portanto, mais de 100 famílias eram beneficiadas.
Meu pai tinha como sócios alguns políticos amigos seus que foram cassados e nos deixaram em situação difícil, pois a revolução nos encheu de cobranças, impostos o que nos impossibilitou de trabalhar e gerar empregos, pois não pertencíamos ao regime ditatorial. Novamente voltamos para Fortaleza e começamos uma pequena fabrica familiar, onde trabalhávamos meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos.
Nós, que outrora, tivéramos carro do ano, moto, credito em bancos e ajudávamos dezenas de famílias, tivemos de voltar a estaca zero, começar tudo de novo, mas meu pai nunca desistiu de seus ideais e continuou lutando contra a crueldade da revolução e nos ensinando que a liberdade é o maior bem que o ser humano pode ter.
Sempre que conseguíamos publicações como “O operário” distribuíamos, clandestinamente, nas escolas, nas repartições e até entre alguns amigos das forças armadas, pois meu irmão era da marinha e havia muita gente contra o regime mesmo entre o pessoal de farda. Certa vez meu irmão foi flagrado e ficou 15 dias sem poder sair do quartel.
Meu pai que era conhecido pelo codinome de “camarada Leonardo” continuou participando das reuniões, recebendo amigos e por vezes desaparecia de casa por muitos dias, voltava alquebrado, triste e tomava porres homéricos sem dar muitas explicações.
Apesar de tudo conseguimos sobreviver aos desmandos e a crueldade dos governantes da época, estudamos, eu e meus irmãos, continuamos sendo pessoas de bem e do bem, pois meu pai nos ensinava: “Tenha vergonha de morrer enquanto não fizer alguma coisa pela humanidade.”.
Meu pai faleceu em 1991, aos 67 anos e nos deixou um legado de luta, sabedoria e alegria de viver.
OBS: o “camarada Leonardo” sempre era convidado para as reuniões onde não poderiam ser deixados vestígios ou qualquer coisa escrita por que ele decorava todas as falas, discursos e até livros inteiros quando queria. Sua memoria funcionava como um gravador e nas seguintes reuniões ele fazia o relatório sem precisar ter escrito uma única palavra.

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Elias Rodrigues Moura