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Ennio Brauns

Um dia com tudo pra dar errado, deu certo
Depois de fazer teatro no Rio de Janeiro, até 77, virei jornalista porque era o que juntava minha necessidade de militância política com o que eu gostava de fazer: escrever e fotografar. Depois de alguma indecisão entre qual das duas emburacar, optei por só fotografar, pelo menos profissionalmente. A ideia de mostrar o que não queriam que se mostrasse é sempre mais forte.
Vida de foto jornalista é sempre um improviso geral. Há mais de 30 anos era mais ainda. Naquele novembro de 1978 o movimento operário paulista estava em plena agitação e eu trabalhava no jornal Em Tempo.
Numa segunda feira (não vou me lembrar a data), os metalúrgicos de São Paulo estavam se preparando para fazer a primeira greve dentro da fábrica durante a ditadura civil-militar.
Na véspera, na casa de amigos, conheci um amigo de amigos que se interessou por me acompanhar na cobertura. Ele tinha uma moto pequena, o que seria uma boa ajuda se tivesse que me locomover por Santo Amaro, onde ficava a maioria das metalúrgicas de São Paulo.

Dia seguinte, por volta das 6 da matina, chegamos à porta da Villares, na Av. Interlagos. Hora da entrada dos operários. Portão de entrada lotado, operários entrando lentamente. Fico ali observando o movimento e pensando em entrar numa das filas de entrada e arriscar. De relance vejo o fotógrafo João Bittar numa das filas e penso que se ele consegue eu também tento. Fico meio de lado observando e vejo ele voltando. Não colou. Dou mais uma rodadinha por ali e chamo meu amigo pra caminhar comigo pela calçada em frente à fábrica. Vamos andando e conversando enquanto eu procuro um buraco por onde eu possa passar pra dentro do terreno. Quase no fim da calçada, vejo que tem uma obra com o portão escancarado. Era a construção de uma torre de teste de elevadores da Villares. Falei ao meu amigo pra gente entrar e seguir andando direto. Logo que entramos vi um mestre de obras vindo na nossa direção e eu fui me preparando pra dizer só: “por aqui tem passagem pra fábrica, né?”. Mas ele passou batido, nem me olhou… Seguimos em frente, uns trinta metros adiante topamos com um desnível na laje de uns dois metros e meio. Disse pra ele que íamos seguir e pular. Fizemos isso, combinamos que ele, como era loiro e com cara de engenheiro, cuidava de falar com qualquer um que viesse na nossa direção, eu só ia fotografar. Rimos, atravessamos uma abertura na cerca de arame e entramos na fábrica.

Naquela adrenalina toda me esqueço do meu acompanhante. Vou seguindo e vejo uma passeata sendo formada por operários que saía do pátio externo e entrava em um dos galpões. Continuo fotografando, acabo um filme, troco, escondo, coloco outro e sigo a passeata dentro do galpão. Faço mais um rolo de filme, troco, guardo, ponho outro e sigo a passeata de novo fora do galpão. Aí acontece o previsível que não tinha sido imaginado. Dois parrudos seguranças de terno, vêm na minha direção perguntando por onde eu tinha entrado. Respondo: “pela porta…”. Ia me afastando e eles insistem: “acompanha a gente até lá dentro…”. Sem pensar, disparo: “vocês garantem minha integridade física lá dentro?”. Nos dois segundos que eles ficaram atônitos com a pergunta, me apressei: “então eu prefiro ficar aqui fora com os operários” e saí correndo, me misturei na passeata e perguntei a alguém: “como é que eu saio daqui, que os homi tão atrás de mim?”. A resposta é um: “por ali”, apontando uma torre de vigilância. Imaginei que atrás da torre tinha um buraco na cerca. Me apressei em direção à tal torre, tentando ver o buraco que imaginei, mas, cada vez mais perto, só via a cerca… Só tive tempo de olhar pra trás e ver os dois de terno correndo pra me alcançar. Corri feito louco direto pra cerca e vejo o João Bittar do outro lado, ele me vê também, eu grito pra ele pegar meu equipamento, jogo a bolsa por cima da cerca que tinha uns outros dois metros e meio e subo até ficar em pé no último fio de arame farpado e despencar do lado de fora. Ainda deu tempo de ver os segurança parando e voltando. Saí dali meio rasgado, resfolegando, mas rimos também…

No dia seguinte, o Em Tempo trazia a manchete e as fotos da primeira greve operária em São Paulo depois do golpe de 64, e dentro da fábrica, o que os empresários mais queriam esconder… Dessa vez não deu.

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Ennio Brauns