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Gilson Modesto

Minha chegada ao inferno

Antevéspera do natal de 1969, eu estava na casa de minha mãe na Vila Esperança, Rua Mapunaro, 32, deitado ao sofá lendo, quando entram não convidados: a equipe do capitão Mauricio da Operação Bandeirantes. Fui levado para o carro onde já estavam meu irmão Francisco e Otavio Angelo. Éramos todos ligados à ALN e estávamos sendo levados para o inferno. A viagem foi tensa, com ameaças de agressão em todo o trajeto. Ao passarmos pela Avenida Tiradentes, presenciei uma cena insólita: o carro de apoio da equipe tentava abrir caminho no trânsito congestionado, com agentes descendo do carro e metralhadora em punho, mandando que os carros abrissem caminho; em um dado momento, um dos agentes aproximou-se de um pequeno caminhãozinho de feirante, cheio de verduras e colocando o pé no estribo ordenou que ele permanecesse parado; o motorista do caminhãozinho num ato de valentia suicida, olhou desafiador para o agente e disse pausadamente: “Vai tomar no cu”.

Chegamos à Oban e, algemados, fomos levados ao corredor próximo às salas de tortura, no primeiro andar onde ficamos em pé a tarde toda. A Oban estava abarrotada nessa época. Fui levado para interrogatório, não sei até hoje o nome do interrogador que chefiava a equipe , mas ouvi ser chamado de major. De inicio ele procurou me intimidar, aos gritos e mostrando alguns instrumentos de tortura; no decorrer do interrogatório, mudou de tática e passou a me tratar como se eu fosse uma vítima dos objetivos políticos dos meus companheiros, que eles já haviam confessado e estavam jogando algumas culpas em mim (assalto ao Banespa). Ao fim me aconselhou a colaborar para evitar o pior, que havia gente ali que não seria tão compreensiva comigo como ele estava sendo.

À noite fomos levados para celas especiais separadas onde parece ficavam os prisioneiros que seriam interrogados de imediato e não deveriam se misturar ainda com os outros presos. Havia um capelão do exercito (capitão Roberto), que visitava os presos que chegavam, fazendo cara de bonzinho e compreensivo, e que me visitou sondando a possibilidade de uma colaboração espontânea.

Na madrugada do primeiro dia fui acordado para ser interrogado; mandaram tirar o cinto e todo e qualquer objeto metálico para que não queimasse meu corpo durante as sessões de choque que viriam. Fui levado à presença de um oficial negro, alto, forte, que foi tratado por “capitão” por outro da equipe dele. Voz soturna e ameaçadora, não teve preâmbulos, foi logo me sentando na cadeira do dragão (cadeira tosca, revestida de zinco, com braços). Com a máquina de choque nas mãos do ajudante dele (um cara magro, parecendo um gigolô bem humorado) e o capitão com um sarrafo de madeira revestido com uma fina película de espuma; começou a pancadaria, e apareceu mais um para ajudar a bater, um sujeito atarracado, vermelho, meio grandão, que me dava socos por todo o corpo sempre que o capitão parava de bater com o sarrafo. Sucederam-se os choques. Queriam detalhes e nomes do assalto ao Banespa da Penha e saber de cursos de guerrilha em Cuba.

Na sala ao lado, alguém estava sendo barbaramente torturado, eu ouvia seus gritos todo o tempo em que eu também gritava na minha sala. Por fim, eles se cansaram de bater sem conseguir nada e transferiram o resto para outros interrogatórios que viriam.

E vieram! Mas posso me sentir bem comigo mesmo de não ter revelado um único nome, um único endereço ou fato. Não por valentia ou coragem excepcional minha, mas, sim, por obtusidade dos carrascos.

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Gilson Modesto