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Glauco Roque

Memórias de um golpe

Quando me dei conta, 50 anos já haviam passado. Me lembro menino, assistindo com meu pai apreensivo as notícias do Repórter Esso. Talvez por influência das caras de descrédito do meu pai, mas aqueles repórteres com nome de ave, Tico-Tico, Sandra Passarinho, não me caíam bem. Eles passavam uma sensação de medo, como se fosse errado se preocupar com os desvalidos, como se fosse crime lutar por uma sociedade mais igual. O pior é que isso passava para a população, temerosa de que o “comunismo” fosse se apoderar dos seus parcos recursos ou proibi-los de ir à missa. A verdade é que eram insuflados a ver fantasmas. A época, auge da Guerra fria, a Revolução em Cuba e a possibilidade do efeito dominó, criava esse clima de incerteza, prevenção por parte dos EUA, dos militares brasileiros e daí para a imprensa, a televisão e a classe média, zelosa de suas tradições e propriedades.
A paranoia grassava. Conhecendo meus pais Synesio e Augusta como eu conhecia, que paravam no trânsito para tirar um galho do meio da rua para que não atrapalhasse os outros, ou arrumar a proteção de uma árvore plantada na calçada que alguém havia quebrado de propósito, envolvidos em programas de alfabetização de adultos, sempre ajudando o próximo não só provendo quando necessário, mas educando, organizando, promovendo, sempre com atitudes exemplares de vida e de justiça, me era difícil imaginar que alguém não concordasse com isso, achasse que eles eram perigosos para a sociedade, que se dispusessem a denunciá-los e quisessem vê-los presos. Mas foi exatamente o que acabou acontecendo tão logo ocorreu o golpe de 64. Após uns dias escondidos em casa, muitos livros queimados e enterrados, o mandato de vereador de meu pai cassado pelos colegas da Câmara Municipal se São Roque, tanto meu pai quanto minha mãe, “dedados”, se apresentaram na delegacia. Achei lindos meu pai de terno e minha mãe em seu tailleur, e fiquei orgulhoso ao vê-los de cabeça erguida irem a pé para se entregar na polícia que ficava na mesma rua da nossa casa. Minha mãe foi liberada e teve depois que responder a processo. Meu pai ficou preso e depois foi transferido a Sorocaba, onde após uns dias, graças a influência do meu tio Tibério que lá vivia, foi transferido para prisão domiciliar em sua casa. Não sei direito quanto durou isso, nem as consequências negativas que certamente trouxeram para o seu negócio e nossa vida, mas não lembro de ter sentido medo, nem de em algum momento ter visto meus pais se acovardarem ou se arrependerem.

Eu continuava minha vida de menino, jogando bola e botão com a molecada e indo pra escola onde nunca sofri qualquer tipo de discriminação, pelo contrário, parecia que pairava um certo remorso pelo ocorrido, o que não excluia eventuais saias justas em discussões nas aula de estudos sociais como quando fiquei sem entender porque os livros do Monteiro Lobato que eu tanto gostava, pudessem ser perigosos ou contra a Igreja. Meus pais seguiram a vida, continuando como podiam, nos negócios de meu pai (um conceituado Escritório de Contabilidade e uma Empresa de Construção chamada Elo, em sociedade com companheiros, Mario Luiz, Zizi, Niazi e Zito, também taxados de “comunistas”) e nas escolas isoladas onde minha mãe lecionava, o seu trabalho de promover o ser humano. Meus pais, foram também convidados pelo novo Padre da Paróquia (que havia substituido o que tanto combatia meu pai publicamente), a participar dos movimentos de cursilho da Igreja Católica onde após uma resistência inicial, perceberam que os objetivos vinham de encontro aos seus ideais de compaixão e amor ao próximo. A participação social deles e os negócios voltaram a florescer. Até que certo dia, no início dos anos 70, uma operação do exército, acho que se chamava Operação Bandeirante, resolveu prender os líderes de esquerda em diversas cidades do interior. Sem mandado de prisão, na calada da noite, militares armados foram a nossa casa e levaram meu pai. Tocaram a campainha de madrugada e meu pai desceu para abrir a porta dando a maior bronco, por achar que era eu voltando de um baile no São Roque Clube e teria esquecido a chave. Ele foi preso sem saber que eu já tinha chegado e estava dormindo. Até hoje comenta que embora tenha ficado preocupado na prisão, entre outras coisas por não saber se eu tinha voltado, foi bom ter dado uns “pitos” nos milicos, ainda que a mim endereçados. Eu, dessa feita, sim, fiquei apavorado. Primeiro porque já entendia melhor as coisas, mas principalmente porque sabia de muitos desaparecimentos de pessoas e torturas que vinham ocorrendo. Logo depois, tomamos conhecimento que Mario Luiz e Niazi também tinham sido levados. Após dias sem notícia, com a ajuda de Zizi, Zito e outros amigos conseguimos falar com o Major Togor Tessitore, pai de amigos meus, que foi quem pode identificar o paradeiro deles e nos tranquilizar um pouco. Estavam presos para averiguação juntamente com diversos outros opositores ao regime no Quartel em Itu. Padre Pedro e outros amigos do movimento de Cursilho também emprestaram toda solidariedade e inclusive foram ao Quartel tomar satisfação. Não adiantou muito, mas um dos oficiais ficou sabendo do meu pai e quase que secretamente se aproximou dele e disse; “DeColores”, uma palavra pela qual os participantes dos cursilhos se saudavam. Após ser liberado e passado por novo julgamento, teve a promessa de que o caso com ele estava encerrado. Nunca foi indenizado pela arbitrariedade e ainda tinha que agradecer por sair ileso dessa. Papai que mesmo na prisão manteve seu senso de humor e suas famosas gargalhadas continuou sua luta, participando como dirigente do MDB, da Campanha das Diretas e inclusive se candidatou a Prefeito mesmo sabendo não ter chances, mas para ajudar o partido pela soma dos votos na legenda. Teve também atuação marcante e decisiva na reestruturação dos principais clubes sociais da cidade e na campanha pela re-eleição de seu companheiro de lutas, o emblemático Mario Luiz, e porque não dizer, na redemocratização do país. Até hoje, no alto de seus 85 e 81 anos, meus pais continuam uns inconformados com desmandos, autoritarismo, corrupção e principalmente injustiça. Seguem inabaláveis nas suas ações em favor dos mais humildes, mantendo seu entusiasmo, sua crença no ser humano, e sempre prontos a compartilhar com alegria, e sem nenhum rancor, os ensinamentos e as experiências que a vida lhes proporcionou. Sinto muito orgulho dos meus pais e de sua luta, e esforço-me por levá-la adiante.

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Glauco Roque