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Glória Flügel – na guerrilha

Guerrilha vista de dentro

“Éramos tão felizes que os vizinhos chamavam a polícia.”
De Fernando Gabeira no livro O que é isso companheiro?

Era adolescente na época em que todos os meus amigos foram sequestrados e presos nos porões da Polícia do Exército. Eu mal entendia por quê. Por ter cara de boa menina, alguém me pediu para “limpar” a casa de quem “caía”, expressão usada por nós para quem era preso.

Batia na porta, convencia a família a revistar o quarto do filho. Muitas vezes não sabiam que estava preso e mal entravam no seu quarto.

Nossos pais sabiam muito pouco do que fazíamos e de nossas convicções. Fomos aconselhados a voltar a viver com eles pois eram os únicos que podiam proteger e interceder em nosso favor.

Eu e seus pais entramos no quarto do Hatsuo. Embaixo do colchão centenas de panfletos, manifestos comunistas e livros proibidos. Estávamos em 1971. Queimamos tudo graças aos latões de óleo vazios da pastelaria que possuíam. Jovem e romântico Hatsuo guardava todos os rastros da “luta armada” expressão que na prática significava estudar e debater política.

Assim, passei a queimar livros proibidos. Ou seja, todos de que gostávamos. Alguns estudávamos sentados nos túmulos do cemitério municipal. Um dos raros lugares seguros para estudar política e mudar o Brasil.

Dona Julibia Jupira Barreto de Faria teve seus quatro filhos presos pela ditadura. O Hamilton, o mais velho preso na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. Visitas eram proibidas. Não para ela que subia as escadarias do presídio com uma velha cruz de madeira, aos prantos, rezando. Não havia homem com coragem de barrá-la. Ela sempre tinha nas sacolas uma banana, um pedaço de bolo para o guarda. Um dia, levou um livro para o filho. “Meu amigo Che”. Ele desesperado pediu. -” Mãe desapareça com este livro. Da minha estante só traga a Bíblia.”

Histórias de tragédia e afeto corriam boca a boca pela cidade pacata. Teve o filho abandonado pelo pai rico na prisão. Anos depois suicidou-se diante da mulher e do filho. Teve a mulher que de tanto apanhar na prisão ficou meio louca. Conversava com o Kafka no pé da escada. O ex-padre que tentou o suicídio depois de entregar seus pares sob tortura. Um homem silencioso e culto era revisor de jornal. Trabalhava à noite e morava num quarto no fundo da minha casa. Casou com uma baiana e foi morar na praia.
O casal que se despediu na minha frente numa praça. Fui avisá-los que a polícia estava em sua casa. Ela foi para o interior do Paraná. Ele desapareceu com o pouco dinheiro que consegui. Nunca mais se viram. Anos depois soube que ele foi parar na Holanda.
Quando saíram da prisão todos viraram heróis. Nossos revolucionários perderam seus empregos e suas casas alugadas. Tinham depressão.

Dona Julibia deixou morarmos na sua casa e foi para casa de parentes em Florianópolis. Emprestou sua casa grande com um galinheiro no fundo do quintal, o que era comum na Curitiba campestre. Éramos em dezesseis pessoas morando juntas. Uma “república” com todo o tipo de gente. Casais grávidos, intelectuais de peso, pessoas mais jovens que eu. Só eu tinha emprego. Vivíamos com pouca comida mas muito unidos. Num sábado não havia o que comer. Sugeri fazermos uma galinhada desde que alguém matasse uma das galinhas. Nossa única alternativa. Nenhum dos heróis teve coragem para tanto. Depois de muita dificuldade para pegar a galinha levaram para uma velhinha a dois quarteirões dali. Era ela que matava galinhas para o bairro inteiro.

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