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Milton Belintani

A identidade insistia que era o mesmo Milton Luiz Bellintani

Rua Sena Madureira, 663. O golpe de 1º de abril de 1964 mudou a rotina da casa, localizada quase na esquina com a Rua Cubatão, na Vila Mariana. Ali, nos dois anos anteriores, o Comitê Central do PCB realizou incontáveis reuniões para discutir os avanços da revolução brasileira no governo Jango.

Sob o calor da quartelada, o Partido incumbiu meu pai e o camarada Sergio Guedes de encontrar lugar seguro para a família de Luiz Carlos Prestes. Não havia. Guedão e meu velho concluíram que seria impossível esconder a companheira do Cavaleiro da Esperança, Maria, e 7 dos 10 filhos que o secretário-geral teve numa mesma casa. Foi preciso separá-los em diferentes lugares.

Duas das crianças menores, Rosa e Ermelinda, ficaram conosco por semanas. De dia, elas, meu irmão, a mais velha de minhas irmãs, Carla, e eu brincávamos. À noite as meninas choravam por não saber onde estavam a mãe e o resto da família, nem por quanto tempo ficariam em nossa casa.

Em setembro, nossa família decidiu se mudar. A casa, que já ficara visada em 1962, quando meu pai foi preso pelo Deops por causa de um piquete na Avenida Miguél Stéfano, numa greve na fábrica Aliperti, agora era alvo.

Fomos para longe: Alameda Pamaris, 86, na Vila Helena.  Hoje, esse microbairro da Zona Sul e todos os demais entre a Avenida Indianópolis e a Avenida dos Bandeirantes, que à época não existia, foram encampados por Moema. Decisão unilateral do mercado imobiliário. A Avenida Ibirapuera, onde circulava o bonde Rodrigues Alves – Largo 13 era, ao lado da Alameda dos Maracatins, a única via asfaltada. No quarteirão oposto, depois do cruzamento com a Alameda dos Carinás, ficava a maior casa dos ciganos no bairro. Havia outras. E antes dela um enorme terreno baldio, que meu irmão Reinaldo e eu explorávamos a cavalo – feito com cabos de vassouras descartadas. Como relutávamos em sair da rua, minha avó nos colocou medo dizendo que as ciganas costumavam roubar crianças. Só de vê-las arrastando as saias coloridas na calçada, meu mundo se detinha.

Décadas depois, o casarão dos ciganos virou casa de shows, o Bourbon Street. E as ciganas ensimesmadas em seu próprio mundo nunca pareceram uma ameaça real. Quem levou embora uma alma de menino, a de meu pai, foram agentes do DOI-Codi. Em 6 de abril de 1974, o sequestram na imobiliária que mantinha com outros companheiros do Partido a alguns quarteirões de casa. A casa caiu depois da prisão e desaparecimento de Davi Capistrano da Costa e José Roman, na fronteira do Uruguai com o Brasil.

Nos dias em que meu pai esteve preso, apanhando e recebendo choques no pau de arara, algo nele se perdeu. Nos 28 anos seguintes que viveu, a identidade insistia que se tratava do mesmo Milton Luiz Bellintani de quem herdei o nome. Mas o pai que sobreviveu ao inferno da Rua Tutoia com Tomás Carvalhal, no bairro do Paraíso, nunca mais foi o mesmo dos meus 14 anos.

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