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Railda Herrero

Pôr do sol sem verde-oliva
Com a censura mais branda, no início dos anos 80, período da distensão, o Cimi – organismo anexo à CNBB – denunciava ao mundo os massacres que ocorriam nos grotões do Brasil, em nome da falsa ideologia da integração nacional, patrocinada pelos golpistas de 1964. Estradas cortavam terras indígenas, deixando um rastro de sangue e milhares de vítimas.
Da janela do Porantim, no início do expediente, quase todos os dias olhávamos os carros do general Figueiredo e de dezenas de batedores passarem em direção ao Palácio do Planalto. No final da tarde, a cena se repetia, com a quase carreata blindada a populares, na volta à Granja do Torto, residência oficial do general de plantão. Como pano de fundo havia o pôr do sol do cerrado, um verdadeiro espetáculo e não apenas uma cena deprimente dos usurpadores do poder, que preferiam cheiro de cavalo ao do povo.
A democracia foi ganhando corpo. Veio a campanha das “Diretas Já”, com o coral da cidade engrossando as manifestações de rua e panelaços cantando “um dia é do caçador/o outro é da caçarola/abre a janeeeela/bate paneeeela…” Bati panelas, buzinei meu fusquinha diante do general Mílton Tavares na Esplanada dos Ministérios, que, em surto, dava cacetadas em veículos na carreata de milhares de cidadãos exigindo democracia.
Janelas foram abertas e os militares vestiram pijamas após dezenas e dezenas de lindos espetáculos do pôr do sol no cerrado. A alvorada de Brasília ganhou mais cores, além do verde-oliva e as cenas com as quase carreatas diárias de milicos passaram. Falta passar a limpo as histórias de milhares de vítimas nas distantes aldeias, registradas pelo Porantim, jornal cujo nome significa “arma, remo, memória”, na língua dos Sateré-Maué. Falta direito à memória para os povos indígenas remarem na direção da democracia inclusiva.

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Railda Herrero