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Raquel de Oliveira Haag

A perspectiva era terrível e cumpriu-se

Tinha 7 ou 8 anos. Foi no período da ditadura militar no Brasil e meus dois irmãos mais velhos foram envolvidos no episódio que ficou conhecido em Curitiba pelo nome de Chácara do Alemão. Ambos eram estudantes, um de Direito e o outro de Filosofia e haviam se casado recentemente.

Nossa casa, na Avenida João Gualberto, 1991, Juvevê, era alegre e vivia cheia de estudantes. Éramos quatro irmãos, o que conferia à casa um perfil eclético, que passava dos Mutantes à Verdi no decorrer do dia. No porão, se ensaiavam peças teatrais, no quintal se confeccionavam cenários, minhas brincadeiras e correrias com o cachorro se confundiam com a leitura de textos de Martins Pena.

Fui instruída por meus pais a não cantar mais músicas “de jovens”. Me disseram que era perigoso, que eu colocava em risco a segurança de meus irmãos. Aos poucos, a alegria se esvaiu e deu lugar à desconfiança e ao medo. A casa já não era o palco dos cenários de Martins Pena. Outros cenários se delineavam na sombra dos amigos que já não apareciam para o café da tarde. As melodias foram substituídas pelo silêncio do medo. A alegria foi substituída pelos cuidados, com o que falar, com quem falar, por que calar.

No percurso até a escola, meus passos seguidos pelos carros verdes da polícia. Sim, eram verdes. E então, um dia prenderam meu irmão mais velho na porta da faculdade, como quem prende um ladrão de galinhas. Na verdade, prenderam um ideal, um grito da consciência. Pensar era o crime. Na mesma tarde, meu outro irmão empreendeu fuga antes de ter o mesmo fim. Minhas cunhadas, ambas grávidas, ficaram sem saber o que esperar do futuro. A perspectiva era terrível e cumpriu-se.

O que eu sinto quando lembro disso?

Sinto gosto de medo na boca, sinto cheiro de fumaça de panfletos queimados, sinto o pavor de pensar em meus irmãos torturados e mortos como foram muitos amigos.

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Raquel de Oliveira Haag