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Thaís Kornin

A minha consciência despertou
Pensar no período da Ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) me remete às memórias de minha infância e juventude. Sou filha de imigrante judeu que fugiu da Polônia, com os pais, no início da Segunda Guerra. Gratos pelo acolhimento do governo brasileiro sempre tiveram uma relação de dívida. Portanto, no ambiente familiar não cabiam críticas porque tínhamos uma boa vida e não havia perseguição religiosa no Brasil.
Não sei exatamente quando a minha consciência social despertou. Eu sei que não tinha ainda conhecimento do ideário daqueles que se opunham ao regime militar, mas já de uma forma ingênua me colocava contra a desigualdade social e a favor dos direitos humanos e sociais no ambiente escolar, ainda caracterizado por castigos físicos ( régua na mão e na cabeça) e pela humilhação daqueles que fugiam ao modelo do bom aluno. E quando entrei na faculdade em 1976, no Curso de Psicologia da UFPR, isso ficou mais claro para mim. O envolvimento na política estudantil – Centro Acadêmico e no Diretório Estudantil – foi um caminho para a participação do que entendia na época como promoção de uma mudança social: a luta pelo ensino público gratuito e de qualidade, a luta pela liberdade de expressão e a justiça social. Não cheguei a ser propriamente uma militante, mas considerava que a postura crítica frente à produção de conhecimento e às relações de poder existentes na Universidade fazia parte da minha forma de me posicionar frente à vida.
Nessa época, eu participava de grupo “secreto” de estudos para a leitura e discussão de textos de Marx. O exemplar veio de forma clandestina, é claro… Alguns colegas eram seguidos por informantes do Dops e quando disponibilizaram os arquivos encontramos suas fichas e, na maioria dos casos, o motivo de sua periculosidade envolvia a acusação de participação de reuniões clandestinas das tendências estudantis, falas em assembleias estudantis como por exemplo: “a ditadura está caindo de podre”. Hoje é estranho pensar na criminalização desses atos políticos.
Lembro, especialmente, de uma ocasião em que se falava de greve geral em Curitiba. Minha avó, que viveu atormentada por invasões de cossacos em sua infância e juventude, veio à nossa casa pedir para que ninguém saísse à rua. Mal sabia ela que eu iria participar de uma assembleia geral, no pátio da reitoria da UFPR, e carregaria para lá um cartaz com a reivindicação “pelas liberdades democráticas”. Nessa assembleia, que havia sido proibida pela administração da Universidade, logo após as primeiras “colocações” das lideranças estudantis, a polícia cercou o pátio num ato de intimidação silenciosa, cortada apenas pelo barulho de um helicóptero que sobrevoava o local, e ordenou a dispersão imediata. As lideranças estudantis, por sua vez, pediam calma e orientavam os participantes a permanecer sentados no chão e evitar qualquer provocação que culminasse em ato de violência. Saímos do pátio lentamente em silêncio.
Refletindo sobre aquela época acredito que tive muita sorte de ter os amigos que tive e as oportunidades culturais e políticas que contribuíram na formação da pessoa e da profissional que sou hoje. Deve ser obra de algum anjo torto que sussurrou em meu ouvido quando nasci: Vai, Thaís! Ser gauche na vida….

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Thaís Kornin