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Zilda Meneguetti

Zilda Meneguetti e não Meneghetti

Na década de 60 e perto dos 20 anos a então empregada doméstica com sotaque do norte do Paraná, Sertanópolis, vivia suas histórias. Cresci cercado por elas, sempre marcadas por uma narração precisa, com detalhes e ambiente. Um desses causos da minha infância é sobre Gino Meneghetti (1878-1976), o ladrão italiano que marcou época em São Paulo por seu estilo particular de assaltar, ganhando fama por seus roubos e fugas espetaculares. Apelidado de “o bom ladrão” e tendo o mesmo sobrenome de minha mãe, nunca tivemos certeza se era ou não nosso parente. Dona Zilda soube de sua existência no lugar mais inóspito possível, o Dops. Ao chegar com uma amiga para tirar a identidade o enquadro: “A senhorita conhece ou é parente do Gino Meneguetti?”, perguntou o Feijoada, nome do fulano responsável pela emissão do documento. “Quem?”, respondeu. Detida por 6 horas para averiguação, o tal do Feijoada, um “negro miúdo”, achou que ela podia estar acobertando o bandido histórico, que havia fugido mais uma vez da cadeia. Após o interrogatório no qual só não perguntaram para qual time de futebol torcia, me liberaram com o argumento: “É, você não tem cara de malandra e sua certidão é Meneguetti e não Meneghetti. Esse H salvou você”. De fato, o U e o H são letras distintas no sobrenome de ambos. A argumentação do Feijoada é que me intrigou. Bem sabemos que erros são comuns em registros de nomes. A dúvida do parentesco permanece. Sorte minha que me livrei do infeliz e nada sofri, uma raridade naqueles tempos. Lembro que o Feijoada queria colocar, depois de tudo, azul como cor dos meus olhos. São verdes. “Quer dizer, fico detida e ele ainda quer mudar a cor dos meu olhos no documento?”, pensei. A identidade ainda tenho guardada. Precisei, depois de mais de 40 anos, tirar uma nova para poder receber a aposentadoria.

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