Oficina de produção de contos

Período
1964- 1975

O período da ditadura civil-militar permite que diferentes disciplinas trabalhem de forma integrada. Esta sequência propõe uma parceria entre História e Língua Portuguesa e pode ser desenvolvida simultaneamente a qualquer uma das sequências sugeridas no portal. Os estudantes serão convidados a ler e produzir contos que abordam o período sobre diferentes perspectivas. Nossa proposta é oferecer mais uma possibilidade de refletir sobre o impacto do regime, usando a literatura como forma de expressão.

Produção final: Pequena coletânea de contos que tem como tema a ditadura militar

Para o professor

Leituras
KUCINSKY, Bernardo. K.: Relato de uma busca. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.
LEVY, Tatiana Salem. “Tempo perdido”, in: RODRIGUES, Henrique (org.). Como se não houvesse amanhã. Rio de Janeiro: Record, 2013.
ABREU, Caio Fernando. “London London ou Ajax, Brush and Rubbish”. In: Os melhores contos de Caio Fernando Abreu. São Paulo: Ed. Global, 2006.
ABREU, Caio Fernando. “Os sobreviventes”. In: Os melhores contos de Caio Fernando Abreu. São Paulo: Global, 2006.

Filme
O ano em que meus pais saíram de férias. Direção: Cao Hamburguer, 2006, 110 min.


Etapas

1. Atividade disparadora: leitura do conto “Tempo perdido”, de Tatiana Salem Levy
Apresente a proposta desta sequência: produzir contos que se passam no período da ditadura militar. Comente que, ao longo do trabalho, além de ler textos literários, eles também farão muitos exercícios de produção.
O texto de Tatiana Salem Levy foi escrito para o livro “Como se não houvesse amanhã”, uma obra que reúne contos criados a partir de canções do grupo Legião Urbana. Tatiana Salem Levy escolheu a música “Tempo Perdido” e escreveu a história de Lucia, uma mulher de 60 anos que é convidada para o enterro de André, um antigo namorado morto durante a década de 1970, quando os dois lutavam contra o regime militar. Quarenta anos depois, mesmo sem o corpo de André (que nunca foi encontrado), a família resolve fazer um funeral. A história tem dois planos narrativos: o atual, que mostra Lucia no presente, preparando-se para o enterro, e o passado, que reconstrói os últimos dias do casal antes da morte de André.
Proponha a leitura do conto para seus alunos. Apresente a origem do conto, a proposta de transformar canções em contos. Comente que vão ouvir a música depois da leitura do texto.
Leia com os alunos a primeira parte do texto (até o momento em que o narrador conta como os dois se conheceram e começaram a atuar na política, antes da quarta divisão por asteriscos). Nessa parte, os personagens principais da história, Lucia e André, estão sendo apresentados. Ouça as impressões e dúvidas dos alunos, não só em relação ao vocabulário, mas também de compreensão.
O ponto de partida da história é o presente, Lucia já tem 60 anos, entretanto, ao longo de todo o conto essa história será intercalada com a narrativa do passado da personagem. Pergunte para os alunos como é possível perceber que há uma mudança no plano narrativo. Levante com os alunos as características principais desses personagens e qual a sua atuação durante o período da ditadura militar.
Em seguida, termine a leitura do conto. Dependendo dos conhecimentos prévios dos estudantes sobre o tema, é possível que surjam dúvidas atreladas ao contexto histórico, tais como por que o caixão está vazio, por que o estado demorou tanto para reconhecer o desaparecimento, ou por que o casal era perseguido.
Essas respostas poderão ser comentadas também pelo professor de História, em uma parceria. São questões pertinentes para tematizar, por exemplo, a importância da existência de uma Comissão da Verdade. Especificamente, em relação ao conto, é interessante explorar com os alunos a importância do amuleto para Lucia e a mudança sofrida pela personagem depois do enterro.
Encerrada a discussão sobre o conto, ouça a música “Tempo Perdido”, do grupo Legião Urbana, e comente as relações possíveis entre a letra e o enredo. Note que a autora reproduziu versos inteiros ao longo do conto.

2. Exercício de produção: criar uma cena a partir de uma música do período
Assim como a autora Tatiana Salem Levy, os alunos irão realizar um exercício de criação literária a partir de uma música.
Ouça com os alunos as músicas “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, e “Como nossos pais”, de Belchior.
A música de Caetano foi apresentada pela primeira vez no 3º Festival da Record e causou espanto na plateia. Sua letra citava um ícone da cultura americana, a Coca-Cola, repudiada pela juventude da época. Além disso, nos versos de Caetano apareciam questões políticas (o sol se reparte em crimes/espaçonaves/ guerrilhas) e outros elementos do universo jovem (em grandes beijos de amor/bomba e Brigitte Bardot), mas tudo parecia ter a mesma relevância.
Como nossos pais”, de Belchior, foi lançada em 1976, quando a ditadura estava consolidada há mais de dez anos e todos os movimentos de resistência haviam se desintegrado por conta da repressão. A letra expressa parte dessa frustração, mas não deixa de anunciar a esperança de um futuro melhor.
Depois de comentar as músicas, apresente o exercício de produção. Os alunos deverão criar uma cena com um diálogo envolvendo dois personagens jovens, inspirados em um trecho de uma das canções. A caracterização das personagens deve ser compatível com o universo apresentado em cada uma das composições. Feita a escolha, eles deverão planejar a personalidade dos protagonistas da cena, para isso responderão às questões a seguir:
1) Em que momento da ditadura ele vive?
2) O que está acontecendo em sua vida nesse momento?
3) Como a ditadura civil-militar interferiu em sua vida?
4) Quais suas principais preocupações?
5) Quais suas preferências? Do que ele gosta?
6) Selecione três adjetivos que representem a personalidade dele.
7) Onde se passa a cena retratada?
8) Quem é o outro personagem presente na cena?
As respostas devem ser compatíveis com o universo apresentado na música escolhida. O objetivo desse planejamento é garantir que os alunos trabalhem de forma mais cuidadosa a construção das suas personagens, conheçam suas motivações para agir de determinada forma durante a cena.
Terminado o planejamento, os alunos poderão escrever as cenas. É interessante garantir um tempo em sala para que as produções possam ser compartilhadas e comentadas. Observe se nas cenas os elementos do contexto estão de acordo com a época retratada, se as ações das personagens parecem verossímeis, se suas ações e reações estão de acordo com as características planejadas.

3. Leitura de três capítulos do livro K., de Bernardo Kucinski
“Carta a uma amiga” e “A cadela” são capítulos do livro “K.: Relato de uma busca”, de Bernardo Kucinski. O livro narra a busca de um pai por sua filha, desaparecida durante o período da ditadura civil-militar. Os capítulos são quase independentes, há uma alternância no foco narrativo, por isso em alguns momentos temos um narrador em terceira pessoa acompanhando a busca empreendida pelo pai, em outros momentos, a primeira pessoa é utilizada e o narrador assume o ponto de vista de outros atores do golpe.
Nos trechos selecionados para esta atividade, entretanto, o personagem do pai não aparece. O capítulo “A carta” traz uma carta escrita por uma jovem (a filha desaparecida) a uma amiga durante o período da ditadura. No texto “A cadela”, um investigador da polícia envolvido com a prisão de militantes contra o regime comenta os problemas gerados por uma cadela que foi presa com um dos suspeitos. Os dois capítulos estão na primeira pessoa.
Leia o texto “A carta” e discuta com os alunos quais as principais inquietações da personagem em relação ao período. Em seguida, leia o texto “A cadela”. Discuta com a classe qual parece ser a relação entre os dois textos. A cadela que aparece no título é o elo entre os dois universos, a narradora da carta conta que tinha uma cachorrinha chamada Baleia, é a presença dela no conto que nos permite inferir que a jovem foi presa.
Compare as diferenças entre as inquietações da jovem com as inquietações do policial que narra o segundo conto. Nos dois textos é possível perceber pontos de vista diferentes dentro do mesmo cenário político.

4. Exercício de produção – Passeata dos 100 mil e foco narrativo
Peça para que os alunos leiam a notícia publicada no dia 27/6/1968, no jornal Folha de S. Paulo, sobre a manifestação. Ao longo da leitura, eles devem registrar em seu caderno algumas informações que servirão como referência para uma produção de texto:
– Por que a passeata aconteceu?
– Quais grupos participaram da manifestação? O que os levou a participar?
A Passeata dos 100 mil aconteceu em junho de 1968, no Rio de Janeiro, e reuniu diferentes grupos da sociedade, estudantes, artistas, professores universitários, entre outros. Todos estavam incomodados com a ação violenta dos setores do Estado responsáveis pela repressão.
Em março do mesmo ano, a polícia havia entrado no restaurante universitário “Calabouço” durante um ato contra o aumento do preço das refeições e acabou atirando no estudante secundarista Edson Luis de Souza Lima, que morreu. A passeata foi pacífica, sem confrontos, mesmo assim, poucos meses depois a repressão prendeu inúmeros estudantes envolvidos em sua organização.
Após compartilhar essas informações, mostre para a classe as fotos da passeata tiradas pelo fotógrafo David Drew Zing, presentes no site do Instituto Moreira Salles. Observe as pessoas que estavam ali, qual idade tinham, que roupas usavam, quais eram as suas expressões, o que diziam os cartazes que carregavam.
Depois de ver as fotos, apresente para os alunos o exercício: escrever uma carta para um amigo que mora em outra cidade, comentando como foi participar da Passeata dos 100 mil. A carta deve descrever o evento, as pessoas que o acompanharam, o que o levou a participar. É fundamental explorar as impressões do narrador sobre o que estava acontecendo, suas sensações e sentimentos durante a caminhada. Para elaborar seu texto, o aluno deverá escolher um dos seguintes personagens:

* A mãe de um estudante universitário;
* Um policial;
* Um estudante militante;
* Um jovem artista.
Como a passeata foi marcada pela presença de diferentes grupos sociais, é interessante explorar os diferentes pontos de vista que estavam presentes no evento. Garanta que todos os personagens tenham sido escolhidos. O exercício permitirá uma discussão sobre o foco narrativo e como ele interfere na construção de um texto.
Com os textos concluídos, compartilhe as produções e discuta como o ponto de vista das personagens determinou a apresentação dos fatos narrados.

5. Pesquisa e planejamento do conto
Nesta aula, os alunos deverão se preparar para a elaboração do conto, produto final desta sequência. Antes de iniciar a escrita, deverão definir os pontos centrais de sua narrativa, tais como: quem será o protagonista da história, a situação inicial vivida por ele, o conflito que irá desestabilizar essa situação.
Em sala, os alunos poderão fazer outras pesquisas que contribuirão para o planejamento.
Espaço
Para definir o local onde se passará a história, leve os alunos para a sala de informática, peça para que selecionem uma cidade próxima (ou que conheçam bem) e pesquisem quais  eventos relacionados à ditadura civil-militar aconteceram ali. Para isso, poderão acessar a página do portal que mostra mapas com esses locais. A cidade escolhida será o cenário do conto. Peça para que anotem no caderno lugares da cidade que poderão ser utilizados no texto e eventos citados no mapa que podem fazer parte da trama.
Personagens
Antes de definir o perfil dos personagens, os alunos podem pesquisar no portal alguns depoimentos de pessoas que viveram no período da ditadura. Esses depoimentos podem ajudá-los a pensar como o regime interferiu na vida das pessoas e quais conflitos ele gerou.
Planejamento final
Agora que os alunos já têm muitas referências sobre a época, podem elaborar o planejamento final do texto. Antes de iniciar a escrita, o aluno deverá definir:
* Quem é o personagem principal da história e quais as suas principais características;
* Onde a história irá se passar e qual a importância desse espaço para a narrativa;
* Como o regime militar interferiu em sua vida;
* Qual o conflito central da história e qual a relação desse conflito com o período histórico;
* Qual será o desfecho da história.
Feito o planejamento, os alunos poderão produzir o conto.

6. Revisão
Depois de ler a primeira versão dos textos, identifique quais foram os principais problemas encontrados. Podem ser problemas relacionados à estrutura da narrativa, por exemplo, a história começa de repente, direto no conflito, não há apresentação da situação inicial, ou problemas relacionados à construção das personagens, que têm ações pouco verossímeis, atitudes que não são coerentes com as características apresentadas, entre outros. Para que os alunos possam refletir sobre esses aspectos, é importante prever uma aula para tratar deles.
Com o consentimento dos alunos, o professor pode apresentar trechos de textos que resolveram essas questões de forma satisfatória e apresentar para a sala, ou selecionar textos com problemas comuns a outras produções para ler com a classe e elaborar coletivamente alternativas para solucioná-los. Depois dessa aula, peça para os alunos elaborarem uma nova versão do texto, resolvendo os problemas apontados.

7. Socialização
Os textos produzidos e revisados podem ser transformados em uma pequena publicação. É possível fazer uma publicação em papel ou virtual, no formato de um e-book. Existe na internet algumas opções de portais que permitem a criação de e-books gratuitamente e de modo simplificado.
Uma aula pode ser dedicada ao lançamento da coletânea de contos e, se os alunos estiverem entusiasmados, podem vir vestidos com roupas da época. O lançamento pode envolver os familiares ou apenas os alunos, incluindo os de outras séries.