Eventos marcantes da TV durante a ditadura

O papel da TV Globo e o modelo Globo de Televisão

A TV foi a arma utilizada pelo governo militar para alcançar a integração nacional, e ela se valeu desse poder para se desenvolver. Aliada estratégica, a Rede Globo desempenharia um papel fundamental na consolidação do regime no Brasil. Entre 1965 e 1982, o grupo de Roberto Marinho passou de detentor de uma única concessão de televisão, no Rio de Janeiro, à condição de quarta maior rede de TV do mundo. Isso foi possível com a ajuda do governo militar, que fez vista grossa à entrada de capital estrangeiro na empresa, o que era proibido por lei. O acordo com o grupo Time Life possibilitou uma ajuda financeira importante para a criação do modelo Globo de programação e a definição da estética televisiva do país.

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Transmissão da chegada do homem à Lua

Em 1969, a Globo se tornou pioneira na transmissão via satélite do lançamento da nave espacial Apollo IX. Em julho, transmitiu a chegada do homem à Lua (missão Apollo XI), devido ao desenvolvimento tecnológico da Embratel, que vendeu o link à emissora. Esse acontecimento teve uma audiência de 41% dos televisores ligados.

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A TV a cores

De 1971 a 1973, a TV Globo adaptou os equipamentos e treinou os técnicos para a utilização de cor na imagem. O padrão visual se diferenciou das outras emissoras, apresentando logotipos e belas paisagens do país, distanciando-se da realidade de miséria em alguns estados. O investimento para “colorir” as imagens era oneroso para as outras emissoras, o que deixou a Globo de novo à frente.

A primeira transmissão a cores aconteceu em 1972, na Festa da Uva de Caxias do Sul, pela TV Globo. Porém levou anos até que toda a programação da emissora chegasse a ser colorida. A Bandeirantes foi a única que acompanhou a Globo nesse sentido. A Globo se consolidou como líder nacional, no início dos anos 1970, com 36 filiadas e centenas de estações retransmissoras pelo país, com apenas sete anos de vida.

Matéria do Jornal do Brasil sobre a transmissão a cores

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Matéria d0 Jornal do Brasil sobre a transmissão a cores

Os exageros da censura: o balé na TV

Em 1966 foram decretadas as normas da censura na TV pelo Departamento Federal de Segurança Pública. Nessa época, já existiam 2,3 milhões de aparelhos televisivos no país. Um dos episódios mais marcantes foi a proibição da exibição da peça “Romeu e Julieta”, encenada pelo Ballet Bolshoi, que seria transmitida pela TV Globo em 1976. O ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão, afirmou que o Bolshoi, por ser uma companhia russa, e a Rússia fazer parte da União Soviética, poderia apresentar uma leitura comunista da tragédia de Shakespeare e proibiu a transmissão que já havia sido anunciada.

Matéria sobre a proibição do ballet Bolshoi

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O ballet proibido

A TV Cultura e a morte de Herzog

A Fundação Padre Anchieta, do governo do Estado de São Paulo, foi criada em 1968 para gerenciar a TV Cultura, comprada de Assis Chateaubriand. Em 1969, entrou no ar a emissora pública, com o objetivo de aprimoramento educativo e cultural dos telespectadores, com jornalismo de qualidade e programas que não buscavam conseguir audiência a qualquer custo.

Inicialmente com quatro horas diárias de programação, a TV Cultura já preenchia os requisitos de emissora pública educativa, exibindo teleaulas, documentários, e peças de teatro. No mesmo ano, entrou no ar um programa visto como vanguarda até para os dias de hoje: uma espécie de “terapia em grupo” de jovens na televisão, apresentado pelo psiquiatra Paulo Gaudencio. O Jovem Urgente discutia o desenvolvimento sexual e foi proibido pelo governo militar.

O noticiário da TV Cultura buscava explicações mais abrangentes sobre problemas do cotidiano e mostrava a realidade social brasileira. Em 1975, o diretor de jornalismo Vladimir Herzog foi preso. Os militares iriam interrogá-lo por fazer parte do Partido Comunista. Logo depois, divulgaram que Herzog teria se suicidado na cadeia, fato que levou anos para ser corrigido: ele foi torturado e morto pelos militares.

Paulo Gaudêncio apresenta o Jovem Urgente

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https://www.youtube.com/watch?v=E4KgEolNpy4
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Extinção da TV Excelsior

Após dez anos no ar, a TV Excelsior fechou as portas em 1970. A emissora fez modificações preciosas para a nova linguagem da TV, além de oferecer altos salários. Inovou com a programação horizontal, ou seja, a repetição do mesmo programa no mesmo horário em dias diferentes, e a vertical, com uma sequência de programas pensada para que o telespectador não mudasse de canal.

Foi também importante na resistência ao manter no ar o Jornal de Vanguarda, rompendo com a linguagem tradicional e introduzindo vários locutores e comentaristas no estúdio – e até bonecos – rompendo com o insosso jornalismo televisivo da época. O jornal sucumbiu ao AI-5 e a emissora desapareceu dois anos depois. Em 1970, depois de sofrer um incêndio, o governo aproveitou a fase difícil da emissora e cassou a concessão.

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Cassação da TV Tupi

A TV Tupi teve a concessão cassada pelo governo militar em julho de 1980. Os motivos variaram para cada uma das afiliadas, mas foram apontados problemas financeiros e administrativos, e dívidas com a Previdência Social, como justificativas principais. Foi o então presidente Figueiredo quem assinou o decreto que extinguiu a primeira emissora de televisão da América Latina, do empresário Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados.

A concessão foi repartida entre Silvio Santos (SBT) e Adolfo Bloch (Manchete). O SBT deslanchou graças aos empreendimentos paralelos desenvolvidos com o apoio da TV, como a realização de concursos e jogos. A Manchete repetiu o destino da Tupi: apesar de ter tido algum sucesso em telenovelas e minisséries, como Pantanal e Dona Beija, acabou afogada em suas próprias deficiências administrativas, e se viu incapaz de enfrentar a Globo pelas fatias do mercado publicitário.

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Foto: Ary Barroso na Rádio Tupi
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