Foto: Carlos Bassan

 

 

Amanhã ou depois, meu irmão
A gente retorna à beira do cais
E conta os amigos
Pra ver qual que brilha
E qual se apagou.

Gonzaguinha, em “Amanhã ou depois”

 

O fotógrafo do Diário do Povo agarrou a bolsa com a câmera, as lentes e os rolos de filme e saiu correndo. Era preciso liquidar a pauta e, sem demora, trazer os negativos de volta ao jornal. Em quinze anos de profissão, Carlos Bassan havia aprendido a não atrasar as entregas. Fotojornalismo tem dessas coisas. Imagem boa é imagem publicada, não adianta lapidar demais e perder a hora do fechamento.

Naquela tarde de abril de 1991, sua missão nada tinha de extraordinária. Apenas ir até o Departamento de Medicina Legal da Unicamp (DML) e fazer uma foto do chefe. Tirar um retrato, como se dizia, de um médico legista de nome sonoro, meio antiquado, como que recolhido de um romance policial: Fortunato Badan Palhares. Não era de fato um nome sofisticado? Parecia sob medida para batizar algum investigador ou delegado de polícia num conto de Rubem Fonseca. Inspetor Palhares, quem sabe. Ou Detetive Fortunato.

Badan Palhares ficara famoso cinco anos antes, quando coubera a ele analisar uma ossada exumada do cemitério de Embu, na Grande São Paulo. Não era uma ossada qualquer. Tratava-se do médico nazista Josef Mengele, lendário criminoso de guerra apelidado de “Anjo da Morte” que tinha sido um dos médicos responsáveis pelas câmeras de gás no campo de concentração de Auschwitz, nos anos 1940. Mengele era acusado de conduzir experimentos em humanos na Alemanha nazista, quase sempre com grande violência e perversidade. A instalação do Tribunal de Nuremberg para julgar os crimes de guerra cometidos por Hitler e seus asseclas, já no final de 1945, levou Mengele a se esconder numa fazenda na Baviera, no interior da Alemanha, e a fugir para a América Latina na virada da década de 1950. Chegou à Argentina no governo Perón, viveu no Paraguai sob a ditadura Stroessner, pelo menos entre 1958 e 1960, e se fixou no Brasil nos anos 1960. Aqui, os militares teriam ajudado a acobertá-lo.

Em entrevista ao jornalista Marcelo Godoy publicada apenas em 2013, no jornal O Estado de S. Paulo, o delegado José Paulo Bonchristiano, um dos chefes do Dops após o golpe de 1964, afirmaria que a polícia política sabia da presença de Mengele no Brasil e só não o prendeu porque “nunca pediram”, referindo-se à polícia alemã. Morto em Bertioga, no litoral paulista, em 1979, o criminoso de guerra foi sepultado em Embu como Wolfgang Gerhard, nome que constava em seus documentos brasileiros. Apenas em 1985, quando uma senhora de Sorocaba (SP) contou que teria abrigado Mengele durante alguns anos, na década anterior, e revelou o nome usado por ele, a Polícia Federal resolveu investigar.

Além de identificar as ossadas, o médico Palhares coordenara um trabalho ainda inédito no país: a reconstituição facial de Mengele. Em fevereiro de 1986, os jornais estamparam fotografias do provável rosto do Anjo da Morte, elaborado por um artista plástico a partir das características físicas apontadas pela perícia conduzida no DML a pedido do então delegado superintendente da Polícia Federal, Romeu Tuma. Mais recentemente, Badan Palhares havia atuado na investigação do assassinato de Chico Mendes, ambientalista e líder seringueiro do Acre, e no crime da Rua Cuba, como ficou conhecido o assassinato jamais solucionado do casal Jorge Toufic Bouchabki e Maria Cecília Delmanto Bouchabki numa mansão no Jardim América.

gora, o nome Badan Palhares estava novamente nos jornais. Desde setembro de 1990, quando um convênio entre Prefeitura de São Paulo, Governo do Estado e Unicamp garantira a transferência para Campinas das mais de mil ossadas retiradas da vala de Perus, na capital.

Bassan, o fotógrafo, entrou no carro do jornal, cruzou a Rodovia Dom Pedro I, passou por duas ou três rotatórias na entrada do campus e chegou em cerca de 20 minutos ao prédio da faculdade de medicina que abrigava o DML. Minutos depois, saiu do prédio desapontado. O chefe do departamento não estava lá. Não era daquela vez que ele conseguiria tirar o retrato do médico legista mais famoso do Brasil.

No caminho de volta ao carro do jornal, Bassan notou uma cena fora do comum. Havia algo muito esquisito no gramado em frente ao DML. Aquela paisagem não era somente esquisita, mas assustadora, surreal. Ao ar livre, a poucos metros do meio-fio, descansavam no chão, separados em esteiras e bacias, dezenas de pedaços de ossos. Um crânio, um fêmur, uma tíbia. Uma mandíbula inteira, outra pela metade.

Bassan nunca tinha visto algo parecido. Parecia ter entrado num plano-sequência de Indiana Jones e a Última Cruzada. Os ossos estavam ali tomando banho de sol, num canteiro do campus, numa tarde prosaica de quarta-feira. E sem ninguém por perto para tomar conta. Aos 31 anos, ele sabia exatamente do que se tratava. Era como se aquelas ossadas guardassem em si as marcas de um passado recente, autoritário e cruel, uma época obscura da história do país. Fez algumas fotos e voltou para o jornal.

***

As ossadas de Perus tinham sido transferidas para a Unicamp em 1º de dezembro de 1990. Após a abertura da vala clandestina, em 4 de setembro, seguira-se um longo período de tratativas que culminara naquele convênio. A decisão solucionava o principal obstáculo colocado: familiares de mortos e desaparecidos políticos jamais aceitariam que as ossadas fossem periciadas no Instituto Médico Legal de São Paulo, órgão que havia sido cúmplice da política de desaparecimento e ocultação de cadáveres, por meio dos laudos falsos que produziram e assinaram.

A ida para a Unicamp foi recebida com entusiasmo pelas famílias. Primeiro, porque se tratava de uma instituição de ensino, e não de um departamento da polícia científica, o que em si já era motivo para alívio. Em segundo lugar, porque o médico Badan Palhares gozava de grande prestígio na comunidade científica e nos meios de comunicação.

Os trabalhos de retirada das ossadas, coordenados pelo médico legista Nelson Massini, se estenderam por mais de um mês. Apenas no dia 27 de outubro de 1990 foi feito o resgate do último saco. A catalogação dessas ossadas, no entanto, se estenderia até o último dia de novembro, ainda no cemitério.

Essa etapa do trabalho, chefiada pelo professor-assistente do DML José Eduardo Bueno Zappa, envolveu 25 técnicos da Unicamp. A cada saco retirado da vala era preciso fazer a limpeza do material, separar os ossos por tipo, acondicioná-los em sacos menores, fotografar o crânio e a face, e classificar cada ossada segundo características possíveis de serem determinadas ao primeiro olhar, como sexo, idade presumida, presença de dentes e ocorrência de fraturas ou perfurações a bala. Em seguida, a ossada era novamente inserida num saco e transportada até Campinas.

— Por enquanto, queremos apenas classificar o material da forma como foi encontrado, sem que haja mistura de peças — Eduardo Zappa explicou à reportagem do Diário Popular. — Há sacos em que existem até três crânios e outros sem nenhum, mas essa é uma questão para ser esclarecida durante a fase seguinte, de identificação, que deve demorar pelo menos um ano.

Três caminhões foram necessários para transportar as ossadas do cemitério à Unicamp. No dia do traslado, houve choro, protesto e comoção em Perus. Aos gritos de “tortura nunca mais” e “punição aos assassinos”, manifestantes atearam fogo a um boneco trajando uniforme verde-oliva, com quatro estrelas nos ombros, quepe e coturno, em clara referência aos generais do Exército que usurparam o poder no Brasil por 21 anos.

A prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, e o presidente do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, presenciaram os protestos. De lá, as ossadas foram acompanhadas por uma carreata durante todo o trajeto até a Unicamp.

Já em Campinas, teve início o trabalho de análise propriamente dito. Cada ossada era fichada e ganhava uma descrição. Mulheres foram separadas dos homens, houve uma tabulação por idade presumida e segundo outros elementos levantados pela análise. Finalmente, era preciso comparar aquelas características com as dos desaparecidos reclamados pelos familiares. Tamanhos e idades funcionavam como critérios de eliminação. “Este fêmur é de um homem de 1,90 metro, então não pode pertencer a esse desaparecido, que tinha no máximo 1,75 metro”. Ou ainda: “Este aqui é de um homem de 50 anos, velho demais para ser o estudante universitário que vocês procuram”.

Agora, Badan Palhares coordenaria os trabalhos de sobreposição de imagens, a etapa principal do processo de identificação. Em 1990, extrair material genético de ossos com a finalidade de comparar com o DNA de parentes de primeiro grau das pessoas às quais os despojos supostamente pertenciam ainda não era uma possibilidade no Brasil. A genética forense fora inaugurada na Inglaterra dois anos antes. Em 1988, a polícia científica da cidade de Leicester conseguira finalmente solucionar dois crimes semelhantes de estupro seguido de morte ocorridos em 1983 e em 1986. Como? Comparando o DNA encontrado no sêmen recolhido nos corpos das duas adolescentes assassinadas com o DNA de uma amostra de sangue tirada de um suspeito. Quando as ossadas de Perus chegaram à Unicamp, o emprego do DNA como método de identificação ainda era algo restrito à Inglaterra e a outros raros centros de genética forense no mundo desenvolvido. E importar a tecnologia estava fora de cogitação.

Os técnicos de Campinas trabalhavam de outra maneira. Por meio de programas de computador elaborados especialmente para este fim, os peritos fotografavam o crânio dos esqueletos reunidos em laboratório e sobrepunham às imagens retratos feitos com as pessoas ainda vivas. Media-se tudo: a distância entre os olhos, o tamanho da testa, a posição dos ouvidos em relação ao queixo. Seis pontos de coincidência total entre crânio e fotografia eram considerados suficientes para confirmar a identificação. Especialistas da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, ligada à Unicamp, foram convocados para atuar junto aos médicos do DML. Se a pessoa tivesse feito algum molde dentário em vida, sobrepunham-se imagens desse molde a imagens da arcada dentária do esqueleto, também de modo a verificar se elas “encaixavam”.

Somavam-se à sobreposição de imagens outras pistas igualmente importantes: uma fratura antiga poderia deixar marcas ainda visíveis nos ossos, assim como uma má formação congênita. Se fulano usava dentadura, beltrano tinha uma prótese de ouro no lugar do segundo molar ou cicrano havia quebrado o nariz mergulhando na piscina do clube aos 12 anos de idade, todas essas eram informações preciosas para se criar um perfil apto a ser comparado com a memória daquelas ossadas.

Como as 1.049 ossadas retiradas da vala poderiam pertencer, em tese, a qualquer uma das 1.500 pessoas que, segundo os livros do Cemitério Dom Bosco, foram exumadas entre 1975 e 1976 sem nenhum registro do local de reinumação, só havia uma forma de dar início ao processo de identificação: comparar as características das ossadas às características pessoais dos desaparecidos cujas famílias procurassem a equipe do DML para requisitar a análise. A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos teve a precedência nesse processo. Rapidamente, seus membros reuniram informações sobre os militantes que, segundo os livros de registro, tinham dado entrada no cemitério na primeira metade dos anos 1970, e acionaram pais, mães, irmãos e irmãs em busca de fotografias e dados antropométricos de cada um. Quanto mediam? Quantos anos tinham quando desapareceram? Que ossos haviam fraturado na infância ou adolescência? Haviam extraído algum dente?

Enquanto isso, os membros da Comissão de Investigação da Prefeitura de São Paulo consultavam, pela primeira vez, os arquivos do IML. As informações obtidas nos laudos eram muito valiosas. Apesar da omissão em relação às torturas e às responsabilidades pelos assassinatos daqueles jovens, quase sempre os laudos listavam perfurações provocadas por armas de fogo e um ou outro hematoma. Para os peritos, essas indicações faziam enorme diferença. Se o laudo do IML atestava que determinado cadáver tivera o parietal esquerdo perfurado por um projétil, seria possível descartar os crânios que estivessem com o parietal intacto. Por extensão, investigar todos os crânios com o parietal esquerdo perfurado ou esmigalhado parecia ser um bom ponto de partida.

Além dos exames necroscópicos, o arquivo do IML, o mesmo muquifo em que o repórter Caco Barcellos descobrira os laudos com a letra T de “terrorista” enquanto investigava os crimes da Rota, guardava os horripilantes livros de fotografias. Conforme a legislação vigente, como ratificado por servidores do IML durante a CPI, todos os mortos sem identificação, indigentes ou não, tinham de ser fotografados pelos legistas. Registrados por meio de um número, ganhavam pastas e eram catalogados na burocracia interna para uma improvável identificação futura. Uma foto de frente, outra de perfil, eventualmente alguma outra imagem de outra parte do corpo, sobretudo que pudesse contribuir com sua identificação – uma tatuagem, um sinal de nascença – e pronto: estava montado o dossiê do desaparecido. Essas imagens não somente poderiam ajudar os peritos da Unicamp a confirmar características antropométricas ou o ponto exato em que determinada bala atingiu o corpo da vítima como, algumas vezes, poderiam configurar as únicas fotografias disponíveis para a identificação.

As pesquisas realizadas nos arquivos do IML e nos livros de entrada do Cemitério Dom Bosco, possibilitaram a descoberta do paradeiro de diversos militantes tidos como desaparecidos. Uma vez que os restos mortais de alguns deles não tinham sido exumados de suas sepulturas originais, foi solicitada sua exumação e encaminhamento à Unicamp, também para comprovar sua identidade. Casos como estes se repetiram entre 1990 e 1991. Confirmado o provável local de enterro, com base nos documentos oficiais, sobretudo do IML, eram feitas exumações e tudo seguia para a Unicamp.

***

— Bateu! Dr. Badan, a ossada 47 bateu!

O legista olhou para o assistente e permaneceu em silêncio. Se fosse mesmo verdade, aquela seria uma notícia maravilhosa, a primeira ossada identificada entre as 1.049 trazidas de Perus.

— É melhor o senhor vir conferir.

O chefe do departamento repassou item por item o dossiê da ossada 47.

— É, bateu! — o médico confirmou. — Seis pontos de concordância na sobreposição de imagens. A mesma altura presumida.

— O mesmo sangue tipo O do irmão e do sobrinho também. Fizemos a tipagem em material retirado da medula óssea de uma das vértebras. Só não deu pra verificar o Rh.

— Perfeito. E essa informação sobre o maxilar, confere?

— Sim. Ele era edentado. Completamente edentado na arcada superior.

Edentado é quem não tem dentes. Trabalhador rural de Votuporanga (SP), militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), preso no sul do Pará pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury e torturado até a morte no Dops de São Paulo em 18 de abril de 1971, Dênis Casemiro não tinha nenhum dente na parte de cima.

O anúncio foi feito no centro de convenções da Unicamp no dia 8 de julho, uma segunda-feira, dez meses após a abertura da vala. Erundina e o secretário estadual de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, empossado no mês anterior junto com o novo governador Antônio Fleury Filho, estavam presentes. Na ocasião, foi anunciada também a identificação de Sônia Maria de Moraes Angel Jones e Antonio Carlos Bicalho Lana, militantes da ALN assassinados em 1973 e enterrados em sepulturas individuais na quadra 7 do Cemitério Dom Bosco. Por não estarem nas quadras 1 e 2, as ossadas de Sônia e Bicalho Lana não foram transferidas para a vala clandestina. Os pais de Sônia chegaram a exumar os despojos da filha e os sepultaram no Rio de Janeiro em 1981, mas depois descobriram que aqueles ossos eram de um homem. Agora, com os trabalhos de análise em andamento na Unicamp, solicitaram a exumação de outras ossadas nas sepulturas em que seus corpos teriam sido enterrados como indigentes. Em menos de um mês, os peritos da Unicamp confirmaram as identidades de Sônia e Bicalho Lana.

Uma missa de corpo presente foi celebrada na Catedral de São Paulo em homenagem aos três desaparecidos finalmente encontrados, um na vala e dois em sepulturas individuais. Em 11 de agosto de 1991, um domingo, os restos mortais de Dênis Casemiro, Sônia de Moraes Angel Jones e Antonio Carlos Bicalho Lana foram finalmente velados, duas décadas após a morte do primeiro e 18 anos após a morte do casal. Era Dia dos Pais, e coube a João Luiz de Moraes, pai de Sônia – assassinada aos 27 anos após ter sido estuprada com um cassetete e ter os seios decepados pelos torturadores –, fazer um emocionante discurso sobre a violência dos anos de chumbo e o longo tempo de espera para sepultar sua filha. “Essas pessoas foram chamadas de subversivas por quem feriu a lei e a ordem constitucional”, disse o pai, tenente-coronel do Exército Brasileiro, agora na Reserva. “Por isso foram perseguidas, sequestradas e finalmente mortas. A sanha assassina dos militares que compuseram o sistema repressivo não encontra paralelo em nossa história”.

Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal de São Paulo, presidiu a cerimônia. As três urnas foram expostas no altar da Sé, cobertas com bandeiras do Brasil. “Tristeza por descobrir um Brasil tão covarde”, comentou o arcebispo na homilia. Não foi a primeira nem seria a última manifestação do cardeal contra a ditadura. Nem seu primeiro envolvimento com o tema da vala clandestina. Já no dia da descoberta das ossadas em Perus, Dom Paulo estivera no local e recomendara aos membros da Comissão Justiça e Paz que acompanhassem os trabalhos e oferecessem o apoio necessário. Em 2 de novembro, transferira a tradicional missa de Finados para o Cemitério Dom Bosco e, ao lado do bispo de Brasilândia, Dom Angélico Sândalo Bernardino, postou-se no topo do barranco vizinho à vala, de onde as ossadas ainda não tinham sido retiradas por completo. Moradores do bairro e familiares de mortos e desaparecidos puseram-se ao redor daquele improvável sítio arqueológico e rezaram ali, debaixo do sol. “Não matarás!”, dizia uma faixa.

Os ossos de Dênis Casemiro foram finalmente sepultados em Votuporanga no dia 13 de agosto de 1991, uma terça-feira. Na véspera, Ivan Seixas acompanhou o traslado das ossadas para o interior, representando a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. O caixão foi velado na Câmara Municipal durante a madrugada e, de manhã, transferido para a Matriz, onde foi celebrada missa de corpo presente. No altar, ao lado do caixão, novamente coberto com a bandeira do Brasil, um exemplar do livro Brasil: Nunca Mais, publicado seis anos antes, no qual o nome de Dênis fora incluído entre as vítimas fatais da ditadura mesmo sem que o corpo tivesse sido localizado. Aos 65 anos, seu irmão mais velho, Isaías, lembrou que outro irmão, Dimas, também fora morto pela repressão e continuava desaparecido. Para ele, o assassinato dos dois demonstrava o “arrocho” da ditadura militar, que, segundo ele “queria se perpetuar no poder e, para isso, não se importava em matar e acabar com uma família inteira”.

***

Quase um ano se passou até que uma segunda ossada retirada da vala fosse identificada pela equipe de Badan Palhares. Em 25 de junho de 1992, uma quinta-feira, o centro de convenções da Unicamp recebeu novamente a prefeita de São Paulo e autoridades como o sub-secretário de Segurança Pública do Estado, Daniel Roberto Fink, e o secretário municipal de Assuntos Jurídicos da capital, Dalmo Dallari. Ali, acompanhado pelo reitor da Unicamp, Carlos Vogt, o médico legista Fortunato Badan Palhares anunciou a identificação dos restos mortais de Frederico Eduardo Mayr, também acompanhado das identificações de outras duas ossadas, não relacionadas à vala clandestina: Emanuel Bezerra dos Santos, militante do Partido Comunista Revolucionário, morto aos 26 anos e enterrado como indigente no cemitério Campo Grande, na zona sul de São Paulo, em 1973; e Helber José Gomes Goulart, militante da ALN, morto aos 29 anos e enterrado como indigente em Perus, também em 1973.

Estudante de arquitetura e militante do Movimento de Libertação Nacional (Molipo), o catarinense Frederico Mayr tinha 23 anos e estava na clandestinidade desde os 20 quando foi baleado na Avenida Paulista e torturado até a morte no DOI-Codi, em fevereiro de 1972. No livro do cemitério, o corpo deu entrada com o nome falso de Eugênio Magalhães Sardinha, o que só se descobriu anos depois, quando o atestado de óbito emitido neste nome foi anexado ao processo de Mayr na 2ª Auditoria Militar. Após a abertura da vala clandestina e a divulgação de que as ossadas atribuídas a Eugênio Magalhães Sardinha estavam entre as mais de mil exumadas entre 1975 e 1976, a mãe de Mayr, Gertrud, viajou até São Paulo para entregar fotografias e preencher o formulário elaborado pela equipe de medicina legal: altura, peso, idade, cor da pele, alguma deficiência física, alguma fratura ou extração dentária.

Pouco mais de um ano depois, em junho de 1992, Gertrud pôde ver na tela de um computador da Unicamp a sobreposição do retrato que havia levado ao registro fotográfico de um crânio. Foi como se ela pudesse ver o filho novamente vivo na tela. Ele estava ali, diante dela, sorridente, com o mesmo bigode, os mesmos olhos claros, o mesmo cabelo loiro. As medidas coincidiam, todas elas. Só agora, vinte anos depois, Gertrud viveria o luto normal de uma mãe que perde o filho. Antes, segundo ela, era um sentimento íntimo e dolorido, mas que não se externava.

— Não que eu estivesse reprimindo, mas não conseguia sair — afirmou, em depoimento para o documentário Vala comum, de João Godoy, lançado em 1994. — Agora, é o normal. É o que acontece a qualquer pessoa, a qualquer mãe ou irmão quando perde alguém da família. Ver a pessoa, enterrar a pessoa, saber que a pessoa está morta. Eu comecei a viver isso só agora.

Foi um alívio. Finalmente, Gertrud, chamada de Tula pelos familiares e amigos, poderia velar o corpo do filho. Chorou por uma semana como se a perda fosse recente. Repetindo a experiência do ano anterior, o cardeal de São Paulo celebrou uma missa na Sé, as três urnas cobertas com bandeiras do Brasil. Os ossos de Frederico foram finalmente enterrados no jazigo da família, no Rio de Janeiro, para onde haviam se mudado quando Frederico era criança. Tula sentia-se grata por ter o filho identificado depois de tanta espera. Grata a quem descobriu a vala, grata a quem teve a coragem de revelá-la, e grata, sobretudo, aos peritos que haviam identificado os ossos.

Depois de Frederico, nenhum outro desaparecido da vala seria identificado pela equipe de Badan Palhares.

***

O relatório que chegou às mãos do deputado estadual Renato Simões em meados dos anos 1990 era chocante. Sacos de ossos amontoados, uns sobre os outros, espalhados pelo chão. Alguns com cadeiras por cima. Ossadas úmidas, cobertas de fungo. Um cenário desolador, com sujeira e abandono, onde deveria haver ordem e asseio científico.

As funcionárias responsáveis pela limpeza do Departamento de Medicina Legal não se conformavam com tamanho descaso. No início reticentes, fugindo da sala das ossadas como quem vê fantasma, fazendo o sinal da cruz e resmungando qualquer coisa sobre virgens e santas, as moças acabaram se solidarizando com aquele ossário insólito e absolutamente informal. Perceberam que a sala inundava em dias de chuva e, quando isso ameaçava acontecer, corriam para retirar os sacos do chão e os colocar de forma improvisada sobre os móveis. Principalmente, rezavam. Ou oravam, conforme a fé de cada uma. Rezavam porque sabiam que aqueles mortos não estavam em paz.

— Esses ossos estão querendo voltar pra debaixo da terra — dizia uma.

— Isso é jeito de cuidar dos mortos? Que desrespeito! — indignava-se outra.

Àquela altura – e isso estava claro para as faxineiras – os peritos já não periciavam mais nada. E as autoridades, sempre dispostas a aparecer no jornal e a dar entrevista para a TV com promessas de concluir a análise dos ossos antes do fim do mandato, haviam simplesmente sumido. Desde 1993, nada de novo acontecia por ali.

— Sei não — comentava uma das funcionárias. — Se não tem ninguém pra olhar por essas almas, é bom a gente tomar conta delas.

O ano de 1993 fora terrível para as pesquisas no Departamento de Medicina Legal. Em março daquele ano, Luiza Erundina transmitira o cargo de prefeita para seu sucessor, Paulo Maluf. O novo prefeito representava tudo aquilo que os familiares de mortos e desaparecidos mais temiam: um político apoiado pelos generais, que fora prefeito e governador biônico, opositor de Tancredo Neves no colégio eleitoral, apologista da Rota e de seus métodos e, principalmente, o mesmo prefeito que, na primeira passagem pela Prefeitura, fora o responsável pela construção do Cemitério Dom Bosco. Um dos primeiros atos de Maluf ao reassumir a Prefeitura, em março de 1993, fora exonerar Toninho Eustáquio, o administrador que havia revelado a existência da vala clandestina.

Simultaneamente, a Secretaria Estadual de Segurança Pública entrara também num período confuso, caracterizado por suspeição e denúncias, desde que uma operação da Polícia Militar resultara na morte de mais de uma centena de presidiários, chacinados por agentes da PM na Casa de Detenção de São Paulo, no bairro do Carandiru, em outubro do ano anterior. Três dias após a chacina, o governador exonerou o secretário Pedro Franco de Campos, o mesmo que estivera no evento de divulgação das primeiras identificações, em 1991, e o substituiu por um professor de Direito e procurador do Estado que permaneceria à frente da pasta até o final do ano seguinte: Michel Temer.

Com Maluf na Prefeitura e Fleury no governo, obviamente desgastado pelo episódio do massacre, faltava vontade política para que as coisas andassem. Novos recursos não chegavam ao Departamento de Medicina Legal, e a verba já empenhada – bem menos do que havia sido prometido por Erundina e Quércia anos antes – havia secado.

Familiares de mortos e desaparecidos acusavam Badan Palhares de gastar o dinheiro do convênio na construção de um novo edifício para o departamento: um prédio com 1.200 metros quadrados, auditório para 120 pessoas, laboratório de DNA e o primeiro laboratório de fonética forense do Brasil, como o próprio médico legista descreveria, orgulhoso, no livro de memórias Por que converso com mortos, publicado em 2007.

Enquanto isso, as análises das ossadas eram negligenciadas. Não havia audiências com as famílias, nem boletins informativos, nem compartilhamento de informações, nem o anúncio de novas identificações. Aparentemente, as análises haviam sido interrompidas. E tudo o que Palhares fazia, quando procurado, era exibir o mesmo relatório mostrado seis meses antes – um ano antes, um ano e meio antes – e reclamar da falta de recursos.

Segundo o legista, não havia elementos comprobatórios suficientes para identificar mais ninguém. Ele não estava totalmente errado em relação a isso. Para emitir um laudo categórico, faltava uma comprovação genética, tecnologia de que a Unicamp não dispunha. Sua equipe havia separado as ossadas de Perus em quatro diferentes grupos conforme a presença de elementos comprobatórios. A ausência de dentes na arcada superior da boca de Dênis Casemiro, por exemplo, era uma característica muito especial que, associada a outros pontos de convergência, tornaria praticamente impossível que aquele crânio fosse de outra pessoa. Por isso sua ossada foi colocada no primeiro grupo e rapidamente identificada. A maioria das outras ossadas, no entanto, ofereciam um número menor de similaridades. Em muitos casos, o que se tinha eram ossos fragmentados, que tornavam ainda mais complexa a identificação por sobreposição de imagens.

Já em 1991, Badan Palhares havia separado as ossadas com maior possibilidade de serem alguns dos desaparecidos reclamados por familiares, como Flávio Molina e Dimas Casemiro. Suas fichas estavam catalogadas. A tecnologia de que dispunha, no entanto, não bastava para se ter um veredicto. A partir de 1993, o legista repetia isso a quem o procurasse, ao mesmo tempo em que reclamava diuturnamente da falta de dinheiro, tanto para adquirir equipamentos mais modernos quanto para remunerar as horas extras de sua equipe. Em outras palavras: não fazia sentido fingir que continuaria trabalhando nas ossadas. Os trabalhos dificilmente avançariam sem um equipamento que permitisse extrair DNA dos ossos, por exemplo.

Naquele momento, o Brasil já detinha tecnologia para extrair DNA de amostras de sangue e de mucosa, mas não de ossos. Sem perspectiva de sucesso nas condições de que dispunha, o chefe dos trabalhos partira intuitivamente para o tudo ou nada: ou obtinha recursos para introduzir a Unicamp na era da genética forense, ou o convênio poderia ser encerrado com apenas duas ossadas identificadas num universo de 1.049. Uma alternativa seria enviar amostras para Londres, o que também exigiria recursos elevados, e para isso havia a necessidade de mais dinheiro. O problema é que ele não combinou com os russos: nem com os familiares, nem com a reitoria. E, por descaso ou de forma deliberada, acabou incorrendo em ações que tumultuaram ainda mais a relação com familiares de desaparecidos e militantes dos direitos humanos.

Num dos episódios, conforme se descobriu em reunião entre representantes da Unicamp e familiares de mortos e desaparecidos realizada em outubro de 1995, Badan Palhares encaminhara fragmentos de ossos para a Universidade Federal de Minas Gerais, numa época em que pesquisadores desta universidade tentavam realizar extração de DNA de ossos humanos. Mas o fizera sem autorização de ninguém. Nem comunicara as famílias. Ou seja, o médico não hesitara em colher amostras daquelas ossadas, já tantas vezes maltratadas pelo tempo e pelas condições em que tinham sido ocultadas, e as enviara para outro Estado na surdina. Mais grave: alguns ossos teriam sido despachados para a Alemanha sem qualquer comunicação prévia, conforme admitira o próprio legista.

Em outro episódio, Palhares foi acusado de agir de má fé ao mudar uma declaração por razões políticas. Ainda em 1991, após participar da exumação de uma ossada em Xambioá, na região do Araguaia, que poderia pertencer à guerrilheira Maria Lúcia Petit, morta pela repressão em 1972, Palhares afirmara, no local, que as características batiam e que sua identidade seria confirmada tão logo o material chegasse à Unicamp. Na viagem de volta, no entanto, Palhares fez escala em Brasília, onde teria se encontrado com Romeu Tuma, o todo-poderoso da Polícia Federal, e mudara sua versão: aquela ossada não poderia ser da guerrilheira, declarou a um jornal. De acordo com o tecido de que era feita a calcinha, deveria se tratar de uma prostituta, vítima de crime passional no norte do Tocantins.

Cinco anos depois, em abril de 1996, o jornal O Globo publicou duas fotos de Maria Lúcia Petit morta, o rosto escondido num saco plástico e o corpo deitado sobre um paraquedas do Exército. O tecido do paraquedas parecia ser o mesmo encontrado junto à ossada exumada em Xambioá. Familiares foram cobrar explicações de Badan Palhares, que voltou a cogitar a possibilidade de ser Maria Lúcia.

— O problema é que não podemos cravar — ele disse. — Faltam elementos comprobatórios.

— Mas de que mais o senhor precisa?

— Um molde dos dentes, uma radiografia da boca, um dentista que tenha tratado dela quando viva, por exemplo.

Irmã de Maria Lúcia, Laura espumava de ódio. Por diversas vezes, ainda em 1991, ela havia insistido para que Badan Palhares recebesse o dentista. O legista havia desprezado sua sugestão, como se não tivesse serventia alguma, martelando a teoria de que a ossada era de uma prostituta. Agora, confrontado pela fotografia no jornal, Palhares mudara o discurso. Laura conseguiu levar até a Unicamp dois dentistas que haviam atendido a irmã e feito uma coroa num dente dela em 1967. Palhares não teve mais como negar.

— Agora podemos atestar que se trata de Maria Lúcia Petit — o médico afirmou.

***

Essas histórias corriam de boca em boca em grupos como o Tortura Nunca Mais, até que a imagem de Badan Palhares ruiu de forma irreversível. O mesmo médico que despertara sentimentos de gratidão nos familiares de Frederico Eduardo Mayr e Dênis Casemiro agora era tratado como impostor, mercenário, ou, na melhor das hipóteses, negligente.

Nesse contexto, as fotografias feitas na sala em que as ossadas eram armazenadas caíram como uma bomba nas reuniões da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

— Inaceitável! — diziam. — Esse crápula vai desaparecer com as ossadas. Elas vão se misturar, apodrecer, esfarelar, e nunca mais um dos nossos será identificado.

A angústia era especialmente maior entre os familiares dos desaparecidos cujas ossadas tinham maior chance de estarem na vala – uma vez que seus corpos tinham sido enterrados nas quadras 1 e 2 e exumados entre 1975 e 1976 sem indicação de local de reinumação – como Dimas Casemiro, Flávio Molina, Grenaldo Jesus da Silva e Francisco José de Oliveira. Estendia-se também a todos que tinham esperança de localizar seus mortos, inclusive as famílias de Marlene Rachid Papembrok e Olímpio de Carvalho, dois desaparecidos que não tinham nenhuma atividade política, mas que sumiram em São Paulo no início dos anos 1970. Tanto os filhos de Olímpio quanto uma irmã de Marlene requisitaram à equipe da Unicamp que incluíssem seus familiares na busca e enviaram a documentação necessária. Uns mais, outros menos, todos depositavam suas esperanças na perícia conduzida por Palhares e eram igualmente vítimas do evidente descaso e da aparente procrastinação.

Renato Simões presidia a recém-criada Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) quando as fotos chegaram até ele, ainda em 1996. Entregues por Maria Cristina Von Zuben, professora de ética médica na Faculdade de Medicina da Unicamp e ex-presa política, aquelas imagens acabaram deflagrando um processo irreversível de reivindicações junto à universidade. Pressionado, Badan Palhares decidiu que os trabalhos de análise e identificação estavam concluídos, uma vez que não havia por onde avançar, e sugeriu que as ossadas fossem devolvidas à Prefeitura de São Paulo.

— O prefeito é o Maluf — reagiram os familiares. — Imagina o que pode acontecer se essas ossadas passarem à responsabilidade do Maluf.

Estabelecido o impasse, o Secretário Estadual de Justiça, Belisário dos Santos Júnior, tratou de convocar uma reunião na própria Secretaria de Justiça. O Estado de São Paulo era agora governado por Mário Covas, sobre quem já não havia a mesma resistência que o governo Fleury provocara em sua etapa final. No âmbito federal, seu colega de partido, Fernando Henrique Cardoso, havia promulgado em dezembro do ano anterior a lei 9.140, que reconhecia como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas no período de 1961 a 1979. A mesma lei, fortemente influenciada pelos trabalhos realizados pelos familiares após a abertura da vala, também criara a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, responsável por analisar novos casos. Finalmente, contava pontos em favor de Belisário seu engajamento junto à Comissão Justiça e Paz de São Paulo, aliada na busca por identificações dos mortos e desaparecidos.

Em 30 de outubro de 1996, tanto o reitor quanto o procurador geral da Unicamp viajaram até São Paulo para buscar uma solução no gabinete de Belisário. Na reunião, ficou decidido que as ossadas continuariam na Unicamp, mas Badan Palhares seria necessariamente afastado da coordenação. A reitoria se comprometia a responder por escrito a todas as perguntas encaminhadas pelos familiares e a aceitar a presença de um perito internacional como observador dos trabalhos. A Secretaria de Segurança Pública, por sua vez, enviaria legistas de sua estrutura para acompanharem o processo.

Naquele mesmo dia, Badan Palhares foi substituído pelo médico legista José Eduardo Bueno Zappa, que já atuava como seu braço direito no DML e anos mais tarde se tornaria seu sócio numa clínica particular de patologia. A despeito da cumplicidade entre os dois, a relação do substituto com os familiares parecia preservada. As perguntas enviadas à reitoria só foram respondidas em março, mais de três meses depois. O perito enviado pela Secretaria Estadual de Segurança Pública, Carlos Delmonte, concluiu que a equipe de Badan Palhares não havia cometido nenhuma imprudência, descaso ou falta de zelo na condução dos trabalhos. E nenhum perito internacional foi à Unicamp nos meses seguintes.

No dia 14 de abril de 1997, Zappa enviou um relatório ao reitor da Unicamp acompanhado de um ofício em que resumia os trabalhos desenvolvidos em relação às ossadas do Cemitério Dom Bosco e reiterava a falta de perspectiva em relação a novas identificações. Foi a primeira vez que um relatório foi entregue aos familiares. “Das 1.047 ossadas restantes, duas estão em processo de identificação por exame de DNA na Universidade Federal de Minas Gerais”, escreveu o novo chefe do departamento, referindo-se a mais uma tentativa de identificação que não daria em nada. “Isto posto, magnífico reitor, damos por concluída a etapa dos trabalhos referentes a 1.045 das 1.049 ossadas da vala comum do Cemitério de Perus, presentemente sob a guarda do DML da Unicamp, todas devidamente catalogadas e numeradas, as quais, sob a ótica pericial da metodologia utilizada, estão a partir de hoje à disposição da justiça”.

Em fevereiro do ano seguinte, esgotadas as possibilidades de avançar com as análises em Campinas, iniciaram-se as tratativas para que as 1.047 ossadas restantes fossem transferidas para o Instituto Oscar Freire, vinculado à Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, o que só seria consumado em 2001.

O Departamento de Medicina Legal da Unicamp foi extinto em 1999, sem que nenhum outro desaparecido fosse identificado. Badan Palhares, ainda se envolveria em outros casos de grande visibilidade e repercussão, entre eles a produção, em 1996, de um controvertido laudo em que afirmava que Paulo Cesar Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, fora assassinado pela namorada Suzana Marcolino. Ela teria praticado suicídio em seguida. A versão, na época, foi amplamente contestada por outros peritos, que entendiam o crime como duplo homicídio. Queima de arquivo, diziam. PC Farias, pivô dos escândalos de corrupção culminaram com o impeachment de Collor em 1992, sabia demais. Palhares manteve-se no cargo de professor titular de medicina legal até 2003, quando se aposentou.

Antes que a primeira década do século XXI chegasse ao fim, as ossadas de um terceiro desaparecido político exumadas da vala clandestina seriam identificadas. E Badan Palhares viraria réu numa Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal, acusado de “descaso, negligência, desinteresse e desrespeito perante o inalienável direito das famílias de enterrar seus entes queridos”.

 

Leia no próximo capítulo: Um terceiro desaparecido é identificado. Badan Palhares, Paulo Maluf e Romeu Tuma são processados. O Estado brasileiro é condenado a retomar as análises das ossadas. O uso de valas clandestinas para ocultar vítimas da ditadura é denunciado pelas Comissões da Verdade.

Foto: Camilo Vannuchi

Quem cala sobre teu corpo
consente na tua morte
talhada a ferro e fogo
nas profundezas do corte
que a bala riscou no peito.
(…)
Quem grita vive contigo.

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, em “Menino”

 

Iara desembarcou no Aeroporto Santos Dumont em 14 de maio de 1979. O filho de 5 anos agarrado à mão, a filha de 2 abraçada ao pescoço. Quatro horas de atraso haviam deixado todos cansados. O voo, de Roma, fora desviado para Viracopos, em Campinas, porque não havia teto para pousar no Rio de Janeiro. Foi preciso transferir os passageiros para aviões menores e esperar o tempo melhorar.

Iara Xavier Pereira voltava ao Brasil após seis anos no exílio. Primeiro Chile, depois Cuba, e por fim a Itália. A longa temporada no exterior chegara ao final quando seu sogro telefonara no mês anterior para avisar que seu processo havia transitado em julgado e ela estava livre. Não precisaria sequer esperar a anistia.

A família de Iara era toda formada por militantes políticos. A mãe, o pai, os dois irmãos e o marido integravam a Ação Libertadora Nacional, a ALN, organização fundada em 1968 por Carlos Marighella. Quando seus irmãos Iuri e Alex foram torturados até a morte, em 1972, Iara estava na clandestinidade e seus pais, no exílio. Menos de um ano depois, em março de 1973, a repressão mataria seu marido, Arnaldo. Iara estava grávida e precisou deixar o país. Agora, seis anos depois, ela poderia finalmente voltar.

Vinha insegura, com a pulga atrás da orelha. Talvez fosse mais prudente continuar na Itália. Ou se mudar para a França, como planejava até o sogro trazer boas notícias. Antes de arrumar as malas, Iara consultara sua advogada, Eny Moreira, uma das mais destacadas defensoras de presos políticos, associada ao escritório de Sobral Pinto e, desde 1978, presidente-fundadora do Comitê Brasileiro pela Anistia. Eny confirmara que não havia mais nenhuma pendência judicial contra ela. Por via das dúvidas, a esperaria no aeroporto.

A viagem longa e as quatro horas de atraso não impediram dois agentes da imigração de barrarem a passageira quando ela já estava quase pisando do lado de fora.

— A senhora é Iara Xavier Pereira?

— Pois não.

— Venha comigo.

Eny precisou intervir, acompanhada pelo deputado estadual José Eudes, do MDB, para convencer o delegado de plantão a adiar o depoimento de sua cliente para o dia seguinte. Iara se comprometeu a ir ao Dops. Quando finalmente chegou à área comum do terminal, ladeada pelo deputado e pela advogada, Iara foi abordada por um repórter do Jornal do Brasil:

— Iara, Iara, você tem acompanhado as notícias? O que você espera encontrar na volta ao Brasil?

— O que eu espero encontrar? Bem, eu espero encontrar o local onde enterraram meus irmãos, Iuri e Alex, que foram assassinados pela repressão e estão desaparecidos.

A advogada ficou de cabelo em pé.

— Pelo amor de Deus, Iara, como você fala isso? Não fala nada de militância, por favor. Vamos com calma.

Era preciso prudência. Arnaldo, o marido de Iara morto pela repressão em 1973, era acusado de ter participado do assassinato de Otavinho, braço direito do delegado Sérgio Paranhos Fleury na condução do Dops de São Paulo. Qualquer provocação poderia suscitar tentativas de vingança. Não tinham matado a estilista Zuzu Angel, conhecida mundo afora, num acidente de carro no Rio?

Além de Eny e do deputado José Eudes, havia alguns familiares à espera de Iara. Eles se dividem. Iara entra com as crianças no carro de uma cunhada. Arnaldinho, aos 5 anos, estava tranquilo, mas cansado. Aninha, aos 2 anos, irritada com tantas mudanças: o fuso, a noite inteira no voo, o novo idioma. Tia Irene entrou no carro em seguida.

— Iara, você não vai ter que procurar ninguém — tia Irene afirmou, de supetão, no trajeto até a Gávea. — Eu encontrei os meninos. Não te mandei uma carta contando?

Iara ficou sem palavras. Tia Irene era irmã de sua mãe. Diferentemente de Zilda, no entanto, Irene não exercia atividade política nem vivera na clandestinidade.

— Você encontrou? — arregalou os olhos. — Eu nunca soube. Não chegou carta nenhuma. Como foi isso?

— Olha, dava um filme — disse a tia. — O Iuri até que foi fácil. Mas o Alex…

Apenas mais tarde, quando chegaram em casa e as crianças foram dormir, Tia Irene pôde contar seu périplo. Entre 1972 e 1973, após a morte dos sobrinhos, ela havia visitado mais de um cemitério em São Paulo à procura dos “meninos”. Esteve no Vila Formosa, no Lajeado e também em cemitérios mais centrais, sem tradição de acolher indigentes, como os cemitério da Consolação e o Araçá. E nada.

— Eu ia, chorava, apelava, e os homens nem para abrir o livro preto —, dizia, referindo-se ao livro de registros. — Eu não achava, não achava.

Acabou encontrando por acaso. Em dezembro de 1973, Tia Irene perdeu o marido, um imigrante húngaro, uns vinte anos mais velho que ela. Antes de morrer, seu marido havia adquirido uma sepultura num cemitério que acabara de ser inaugurado, dois anos antes, na saída de São Paulo para Campinas. No dia do funeral, Tia Irene se deu conta de que naquele cemitério ela nunca havia estado. Muito menos perguntado sobre os sobrinhos por lá. Sepultou o marido no dia 9 de dezembro e retornou no dia seguinte para providenciar a instalação de uma placa de memória com o nome dele. Como precisou se reunir com o administrador para acertar a burocracia, aproveitou para perguntar a ele sobre os sobrinhos, da mesma forma que havia feito nos demais cemitérios. Dizia que eles eram estudantes, que tinham 22 e 23 anos, “uns meninos bons”. Talvez porque fosse um cemitério novo, ainda sem os vícios dos demais, o administrador lhe pareceu mais solícito. Anotou os nomes e as datas das mortes e voltou com dois livros de capa preta.

— O nome do Iuri estava no livro de 1972, na parte dedicada à letra I — Irene contava para a sobrinha. — O do Alex, não.

Dos dois irmãos, Alex foi o primeiro a morrer, em 20 de janeiro de 1972. Foi assassinado sob tortura, junto com Gelson Reicher, estudante de medicina e seu companheiro na ALN. A versão oficial, divulgada nos jornais dois dias depois, dava conta de que Alex e Gelson morreram em confronto com a polícia. Haviam resistido à voz de prisão e disparado contra policiais. Alex tinha 22 anos. Como não havia quem reclamasse o corpo – os pais no exílio e os irmãos na clandestinidade –, seu corpo foi enterrado no Cemitério Dom Bosco como “não reclamado”. Em 14 de junho, menos de cinco meses depois, foi capturado seu irmão Iuri, de 23 anos, em situação semelhante, acompanhado por dois colegas de organização, Ana Maria e Marcos Nonato. Desta vez, a notícia da morte demorou a chegar. Não havia sequer uma versão falsa circulando na imprensa, sinal de que ele havia “caído” e estaria sofrendo tortura em algum lugar de São Paulo. Iuri passou seis dias no DOI-Codi, na Rua Tutóia, até que, no dia 20, seu corpo deu entrada no IML.

Localizado o registro do sepultamento de Iuri, Tia Irene manda colocar uma lápide de mármore no local onde ele havia sido enterrado. Passou a frequentar aquele cemitério com relativa frequência. Ia sempre às duas sepulturas, a do marido e a do sobrinho, nos aniversários, no dia de Finados… Higienizava as placas, levava flores. E volta e meia insistia com algum funcionário sobre o paradeiro do outro rapaz.

— Era um menino, um estudante — ela repetia, e voltava a chorar. — Tinha 22 anos.

Quase três anos se passaram até que, no final de 1976, o novo administrador do cemitério, recém-chegado a Perus, ouviu a mesma ladainha e quis ajudar.

— Minha senhora, será que não há uma confusão de data? Não foi um ano antes ou um ano depois?

“Pessoas de idade são assim, podem se confundir”, Toninho pensou. Mas Tia Irene tinha certeza da data.

— É claro que eu tenho certeza.

— A senhora tem a certidão de óbito?

— Não tenho. Mas saiu no jornal. Eu tenho o recorte.

— Então faz assim — Toninho sugeriu. — Traz esse jornal para a gente dar uma olhada.

Quando Tia Irene voltou, exibiu o recorte da matéria publicada no Estadão como um trunfo.

— Olha aqui. A reportagem é do dia 22 de janeiro de 1972, não falei?

A nota trazia a versão oficial divulgada pela Secretaria de Segurança Pública, acusando Alex de ter resistido à prisão e disparado contra os agentes. Toninho leu a nota e chamou a atenção de Irene para um detalhe:

— Dona Irene, aqui diz que na ocasião foram mortos Gelson Reicher, que usava o nome falso de Emiliano Sessa, e Alex Xavier Pereira, que usava o nome falso de João Maria de Freitas.

— Imagina, nome falso — Tia Irene respondeu. — Isso é coisa da polícia. O nome dele era Alex, mesmo.

Toninho se fez de desentendido e propôs:

— Bom, já que a senhora está aqui, vamos pesquisar por este nome também?

Bingo! No livro de 1972, havia o registro de entrada do corpo de João Maria de Freitas. Desde então, Tia Irene rezava e levava flores também para aquela sepultura.

De volta à Gávea, em 1979, aquela informação eclodiu como uma epifania aos ouvidos já cansados de Iara, em sua primeira noite no Brasil.

— Filhos da puta, eles enterraram com os nomes falsos!

Até aquele momento, familiares de desaparecidos não tinham feito buscas pelos codinomes. A maioria sequer sabia a identidade utilizada por seus filhos e filhas na luta armada. Da mesma maneira que a tática da guerrilha orientava os militantes a jamais contar seus nomes de batismo nem sua origem aos companheiros de organização, tampouco seus familiares ficavam sabendo seus codinomes ou as atividades que desempenhavam na clandestinidade. Iara ainda nem havia se ambientado com o Rio de Janeiro e já queria ir a São Paulo. Precisava visitar o cemitério de Perus.

Já era quase meia-noite quando Iara telefonou para Suzana Keniger Lisbôa. Suzana também tinha militado na ALN e, desde que saíra da clandestinidade, no ano anterior, integrava a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, em formação. Seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, havia desaparecido em 1972 sem deixar laudo no IML nem notícia falsa de “confronto” com a polícia. Oficialmente, não havia nada que indicasse que Luiz Eurico poderia estar morto. Suzana havia se estabelecido novamente no Rio Grande do Sul e tinha voltado a estudar quando foi convidada a fazer parte do Comitê Brasileiro pela Anistia. Por meio de Eny, soube que Iara estava prestes a desembarcar no Brasil e deixou seu telefone: era para Iara ligar quando chegasse. Iara esperou que Suzana falasse e, em seguida, expôs sua aflição:

— A gente precisa se encontrar — Iara falou. — Tenho uma novidade importante. Você pode vir para o Rio?

Suzana não podia viajar naquele momento e propôs que esperassem até meados de junho, quando haveria o 3º Encontro Nacional dos Movimentos de Anistia, no Colégio Metodista Bennett, no Rio.

Foram três dias de seminários e reuniões, de 15 a 17 de junho. Trinta e nove entidades em favor de uma anistia ampla, geral e irrestrita estavam ali representadas, debatendo estratégias de divulgação, popularização da pauta e elaboração de propostas a fim de confrontar o projeto oficial elaborado pelo Poder Executivo, previsto para ser entregue na Câmara dos Deputados dali a um mês. Mesmo assim, Iara não conseguia se concentrar na programação. A jornada havia perdido a graça. Ela só conseguia pensar na revelação feita por Tia Irene. Se as suspeitas dela se comprovassem, estaria configurada uma forma peculiar e perversa de desaparecimento: a opção deliberada por registrar o morto com o nome de guerra, mesmo quando o nome verdadeiro era do conhecimento do IML, de modo a dificultar sua localização pelos familiares.

Iara estava decidida a encontrar esses corpos, não por motivo espiritual ou religioso, mas para lhes dar uma sepultura digna e, principalmente, exigir justiça. Ela achava, mais por intuição do que por conhecimento científico, que os ossos de seus irmãos poderiam dar alguma pista sobre a forma como foram mortos. Pelo menos para confrontar a versão oficial divulgada por seus algozes. Se o aparato repressivo montava teatrinhos para forjar um suicídio ou um atropelamento, e os documentos do IML tinham sido igualmente falseados, talvez os restos mortais preservassem a memória da violência de Estado perpetrada contra suas vítimas. Os ossos falariam!

Assim que Suzana desembarcou no Rio, Iara contou a ela a descoberta de sua tia. Combinaram de ir para São Paulo assim que aquele encontro terminasse. Ivan, que dois anos antes havia localizado em Perus os restos mortais de seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, iria junto. Sérgio Xavier Ferreira, primo do desaparecido Carlos Alberto de Freitas, da VAR-Palmares, também. Assim, poderiam ajudar e se proteger uns aos outros.

— Se você estiver certa, vou encontrar o Ico lá — Suzana comentou com Iara, ansiosa. — Eu sei o nome que ele usava na clandestinidade.

***

O Cemitério Dom Bosco foi inaugurado no dia 2 de março de 1971. Não houve fita cortada nem discurso de inauguração. Somente o sepultamento de um primeiro grupo de corpos encaminhado pelo Instituto Médico Legal.

Desde o primeiro dia, os cadáveres enviados ao cemitério de Perus tinham em comum uma desconcertante condição de abandono. Antes que as primeiras famílias da região pudessem fazer uso de suas sepulturas, o Dom Bosco foi escolhido como destino preferencial de todos os mortos que chegassem ao IML sem identificação ou que não fossem reclamados por nenhum parente no prazo de 72 horas.

Classificados como “desconhecidos” ou “não reclamados”, eram todos sepultados em uma cova comum, sem lápide ou memorial. Igual destino tinham as vítimas da fome e da extrema pobreza recolhidos nas madrugadas frias de São Paulo, nas ruas, nos albergues, nas favelas, tratados na época como “indigentes”. Até então, indigentes, desconhecidos e não-reclamados tinham como destino preferencial o cemitério de Vila Formosa, na Zona Leste. A partir de março de 1971, aquele cemitério novinho, amplo e deserto, assumiu a responsabilidade de hospedar corpos encaminhados pelo IML e pelo Serviço de Verificação de Óbito da USP, responsável pelo encaminhamento das vítimas de mortes não violentas.

Um cemitério no bairro era uma reivindicação antiga dos moradores de Perus. Desde meados dos anos 1940, petições e protestos eram elaborados com relativa frequência pela gente do bairro, na esperança de conseguir junto à Prefeitura a construção de um cemitério onde a população local pudesse enterrar seus mortos. Tinham razão ao reivindicar. Os cemitérios municipais – e, portanto, gratuitos – mais próximos ficavam a mais de 15 quilômetros, um na Freguesia do Ó e outro na Lapa. Para o morador de Perus, era mais fácil ir ao cemitério de Caieiras do que a qualquer um dos cemitérios paulistanos. Mas Caieiras era outro município, ou seja, suas sepulturas mantinham-se inacessíveis aos habitantes do bairro.

Distante 32 quilômetros da Praça da Sé, no meio do caminho para Jundiaí, Perus ficava de tal forma apartado do noticiário e da vida cotidiana da cidade que, para muitos, tratava-se de outro município, como Caieiras, Cajamar ou Franco da Rocha. Talvez por isso tenha virado hábito entre os peruenses referir-se à capital como se fosse outro município. “Eu trabalho em São Paulo, mas moro aqui”, dizia a moça. “Amanhã, logo cedo, vou pegar o trem pra São Paulo”, dizia o moço. Nos jornais, nas raras vezes em que surgia algo sobre o bairro, havia sempre um redator incauto para cometer deslizes como “em Perus, a 30 quilômetros de São Paulo”, reforçando o senso comum de que havia uma fronteira entre a capital e o distrito.

Para quem olha o mapa da cidade e enxerga nele o perfil de uma cabeça de cachorro com o focinho apontando para o leste, Perus fica bem no topo de uma das orelhas. A outra orelha é o Tremembé.

A verdade é que tudo era longe demais para os moradores de Perus em 1970. Apenas duas coisas pareciam demasiadamente próximas: uma fábrica de cimento e um lixão. A poluição emanada das chaminés da fábrica, o pó de cimento que cobria as casas, associadas às péssimas condições de trabalho impostas pelo “mau patrão” J. J. Abdalla, que não fazia manutenção dos equipamentos nem recolhia os impostos devidos, motivou os funcionários da Companhia de Cimento Portland Perus a decretar uma greve que se estendeu por sete anos, de 1962 a 1969. Um recorde.

Na ocasião, foi o jornal O Estado de S. Paulo que impingiu nele o apelido de “mau patrão”, uma deferência às avessas para com o controvertido industrial que adquirira a Portland em 1951, quando era Secretário do Trabalho do governador Adhemar de Barros, ao qual se fixou o bordão “rouba, mas faz”.

O levante de trabalhadores ficou conhecido como movimento dos queixadas, uma referência aos porcos-do-mato que, sob ameaça, unem-se ao menor sinal de perigo para reagirem em grupo. No final, sua militância resultou na intervenção do Governo Federal na fábrica de cimento, em 1975, e em seu fechamento definitivo, em 1987, quando os antigos funcionários foram indenizados. O movimento dos queixadas também daria régua e compasso para que um novo ativismo surgisse ali, conseguindo o encerramento das atividades no lixão e sua conversão em usina termelétrica a partir de 2007.

O início da colonização de Perus remetia ao século XVIII, quando se formou próximo à confluência do Ribeirão Perus com o Rio Juquery um local de pouso para os tropeiros que se aventuravam rumo ao interior. Diz a lenda que havia por ali uma senhora que criava perus e os preparava na panela, sob encomenda. Até que o nome pegou. “Vamos pousar ali nos perus”, diziam os tropeiros antes de avançar rumo a Jundiaí ou Campinas.

O Cemitério Dom Bosco foi uma obra de Paulo Maluf. Quarta opção na lista apresentada pelo governador Abreu Sodré para o então presidente Costa e Silva, Maluf foi escolhido pelo general para assumir o cargo e tomou posse em 8 de abril de 1969, numa época em que os prefeitos eram biônicos, indicados pelos militares. À frente da fábrica de pisos Eucatex, Maluf ocupava a presidência da Caixa na ocasião. Ficou dois anos como prefeito, até ser substituído pelo também engenheiro Figueiredo Ferraz, indicado pelo governador Laudo Natel. Foi o suficiente para construir o cemitério de Perus e também o Minhocão – uma via elevada com mais de três quilômetros de pista dupla que desempenhou papel fundamental na degradação do centro de São Paulo.

Um primeiro estranhamento que surgiu durante a construção do cemitério foi a péssima localização. Até o cemitério de Perus ficava longe de Perus! Enquanto o centro do bairro orbitava a estação de trem, era preciso caminhar por mais de dois quilômetros pela Estrada do Pinheirinho para chegar ao cemitério, um percurso cumprido em chão de terra, não urbanizado, que tornava especialmente difícil o acesso ao local. Moradores estranharam a desapropriação daquele terreno. Em Caieiras e em Jundiaí, os cemitérios ficavam em áreas centrais. Ali, não. A Prefeitura havia escolhido um local ermo e isolado, essencialmente rural, para transformar no cemitério de Perus. Uma área com relevo acidentado, com poucas casas e nenhum estabelecimento comercial em volta.

Concluída a terraplanagem e o projeto de incorporação das glebas e quadras, em poucos meses ficaram prontas as salas de velório e administração. Maluf fez questão de acelerar os trabalhos nos últimos meses para inaugurar antes de partir. Havia algo de estratégico naquele gesto, principalmente para um político de sua envergadura, que não escondia o desejo de chegar ao governo do Estado e à Presidência da República sob o beneplácito e as bênçãos dos militares.

A novidade recebeu o nome de Cemitério Dom Bosco em homenagem a um padre italiano, canonizado em abril de 1934, que o Papa Pio XI nomearia “padroeiro dos jovens”, “pai e mestre da juventude”. Uma ironia e tanto.

***

Não era a primeira vez que Ivan Seixas visitava aquele cemitério. Sua história com Perus era antiga, remetia ao início da década.

Ivan tinha 16 anos de idade quando foi preso e levado ao DOI-Codi, em 16 de abril de 1971, junto com o pai, Joaquim Alencar de Seixas. Pai e filho militavam no Movimento Revolucionário Tiradentes, o MRT. Na véspera de sua prisão, o MRT, numa ação conjunta com a ALN, tinha sido responsável pela morte do empresário Albert Henning Boilesen, presidente da Ultragás e financiador contumaz do aparato repressivo. Entusiasta da violência praticada contra os oponentes da ditadura, Boilesen costumava assistir a sessões de tortura na Operação Bandeirantes, a Oban, e manteve a frequência quando aquele centro semiclandestino de repressão foi institucionalizado por meio do DOI-Codi, agora um órgão oficial, fundado no mesmo endereço em setembro de 1970.

Boilesen ia à Rua Tutóia, na Vila Mariana, como quem vai ao cinema. Chegou a doar um aparelho de aplicação de choques a fim de melhor equipar aquele local, que seu comandante, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apelidara de sucursal do inferno. “Henning Boilesen foi justiçado”, dizia o manifesto assinado por MRT e ALN e deixado ao lado do corpo do empresário na Alameda Casa Branca. “(Agora) não pode mais fiscalizar pessoalmente as torturas e assassinatos na Oban, nem oferecer banquetes aos altos oficiais das forças armadas brasileira, que comandam o terror e a opressão de que é vítima o povo brasileiro desde 31 de março de 1964”.

Aquilo foi o estopim de um sentimento incontrolável de vingança por parte do órgão de repressão. Menos de 24 horas depois, Joaquim e Ivan foram localizados e levados para o DOI-Codi. Pouco depois, sequestraram também a mulher de Joaquim, Fanny, e as duas filhas, Ieda e Iara. Na madrugada de 16 para 17 de abril, enquanto Joaquim era brutalizado na Rua Tutóia, uma equipe de agentes levou Ivan para um matagal com a promessa de que ele seria fuzilado, uma forma de intimidação. No percurso de volta ao DOI-Codi, logo cedo, os agentes pararam numa padaria para tomar café. Sem sair da viatura, Ivan conseguiu ler, na capa de um grande jornal pendurado numa banca, a notícia da morte de seu pai. Segundo a nota, o terrorista Joaquim tinha sido abatido com sete tiros no dia anterior, após resistir à voz de prisão e abrir fogo contra a polícia. Era mentira. Joaquim estava vivo, como Ivan pôde constatar minutos depois, ao ingressar novamente do DOI-Codi.

Joaquim morreria naquela noite. Como o exame necroscópico já estava pronto antes mesmo de sua morte, o corpo de Joaquim foi encaminhado diretamente para o Cemitério Dom Bosco e enterrado no dia 19 de abril, de tal sorte que Joaquim se tornou o primeiro preso político enterrado em Perus, apenas 37 dias após a inauguração. Seu sepultamento foi registrado no livro dos indigentes, uma vez que nenhum parente foi ao IML para reivindicá-lo: a mulher e os três filhos estavam presos e incomunicáveis.

Um ano e meio depois, no final de 1972, a mãe e as irmãs de Ivan foram soltas e puderam finalmente procurar pelo corpo de Joaquim. Ivan permaneceria preso até 1976, passando por quatro presídios diferentes.

Fanny, Iara e Ieda localizaram sem maiores dificuldades o local em que Joaquim fora enterrado. Devido ao teatrinho montado pela repressão, não havia motivos para ocultar aquele guerrilheiro. Aos olhos da sociedade, graças à ajuda da imprensa, havia morrido um perigoso terrorista, que ousara resistir à voz de prisão abrindo fogo contra a polícia, numa operação em que o morto era o culpado e os policiais eram as vítimas. Localizada a sepultura de Joaquim e o registro de sua entrada no livro de não-reclamados, as três voltaram outras vezes ao cemitério. Levavam flores, arrumavam a sepultura. Quase sempre, eram seguidas e ameaçadas por agentes à paisana no longo trajeto entre a estação e o cemitério, pela Estrada do Pinheirinho. A mãe contava os detalhes ao filho quando ia visitá-lo na cadeia. Às vezes, desabava, aos prantos. Em uma das ocasiões, um sujeito parou a seu lado enquanto ela visitava a sepultura.

— Veio visitar esse comunista de merda? — disse o estranho. — Essa sepultura aqui do lado nós reservamos para o seu filhinho, viu? Nós vamos matar ele e enterrar ao lado do papai. Dois terroristas filhos da puta.

Aos poucos, as visitas ao cemitério fizeram com que Fanny e as filhas criassem um vínculo com os sepultadores. Conversa vai, conversa vem, revelações começaram a ser feitas. “Chegou mais um estudante”, contava um. “Olha, dona, teve um aí que chegou todo destruído”, dizia outro.

No início de 1973, o enterro de Alexandre Vannucchi Leme não passou despercebido. “Esse estudante que apareceu no jornal foi enterrado aqui”, disseram. “Trouxeram o corpo quase de noite. Deu pra ver que ele estava todo arrebentado. Aí jogaram cal em cima, provavelmente para dissolver”.

Alexandre cursava geologia e militava na ALN quando foi assassinado sob tortura, em 17 de março de 1973. Quando seus pais obtiveram o atestado de óbito, elaborado com informações falsas, Alexandre já tinha sido sepultado, na quadra dos indigentes, uma vez que o corpo não havia sido reclamado nas 72 horas que sucederam à morte. A própria notícia de sua morte, atribuída a um atropelamento que jamais existiu, fora divulgada pelas autoridades e publicada nos jornais apenas quatro dias após o sepultamento. Tudo conforme o script.

Quando finalmente foi solto, Ivan quis ir o cemitério de Perus com o pretexto de visitar o túmulo do pai. Ele sabia que Joaquim não estava mais lá. Ainda em 1974, os próprios sepultadores tinham convencido suas irmãs a exumar o corpo do marido e transferi-lo para outro cemitério, o que foi feito em 1975.

— É melhor vocês levarem o Joaquim — diziam. — Daqui a pouco vai vencer o prazo para a exumação e vão misturar todos esses ossos num buraco só. Ou tocar fogo em tudo. Vocês vão acabar perdendo o pai de vocês.

No cemitério, Ivan conferiu a localização de outros guerrilheiros e, com a ajuda de Toninho Eustáquio, pesquisou os livros. Pediu para ver o livro de 1971 na letra D.

Dênis Casemiro era amigo de seu pai e companheiro de organização. Morrera um dia depois de Joaquim, caçado sem descanso e torturado com especial violência por ter participado da execução de Boilesen. Dênis Casemiro também estava lá, registrado com o nome verdadeiro. Ivan notou uma coisa que o deixou desconfiado. O corpo de Dênis tinha sido registrado no livro como se fosse de um sujeito de 40 anos. Na verdade, Dênis tinha 25 anos quando foi morto. Não bastasse o erro, deliberado ou não, Ivan notou ainda que seus restos mortais haviam sido exumados da sepultura original. E, estranhamente, nada constava sobre o destino daquelas ossadas. Pela primeira vez, ouviu falar sobre a possibilidade de haver ali uma vala clandestina. Nela, Dênis não estaria sozinho.

***

Toninho lembrou-se de Ivan, que anos antes havia se interessado pelo sumiço daquele Dênis, irmão de outro desaparecido. Também disse se recordar de Dona Irene, a tia de Iara, e de como haviam encontrado a sepultura do jovem Alex, registrado com nome falso em 1972. O administrador conduziu o grupo até a gleba 1 e se demorou em frente a cada uma das sepulturas, tanto a de Iuri quanto a de Alex, ambos exumados e reinumados no mesmo local conforme o livro. Explicou a Iara o processo para transferir os ossos para o Rio, caso ela quisesse providenciar o traslado, e mostrou a ela as anotações referentes aos dois.

Para Iara, recém-chegada ao Brasil após seis anos de exílio, aquele era um momento de grande emoção, uma espécie de ajuste de contas com um passado interrompido violentamente. Era também a primeira pista para uma revelação muito maior, que ajudaria a desvendar o paradeiro de muitos outros desaparecidos.

Suzana, então, contou que a situação de seu marido era semelhante à do Alex e pediu para verificar no livro. Ela nunca havia cogitado procurar Eurico em cemitérios. Se não havia qualquer documento do IML ou de outro órgão a declará-lo morto, como Eurico poderia ter sido enterrado num cemitério municipal, com registro no livro e tudo?

— Também foi em 1972 — contou. — Um pouco depois do Alex, em setembro.

— E qual era o nome dele?

— Luiz Eurico Tejera Lisbôa.

— É, de fato não tem ninguém com esse nome aqui — Toninho conferiu. — Ele usava algum outro nome?

Suzana já esperava por aquela pergunta.

— Nelson Bueno.

Na letra N, quase por encanto, surgiu o nome de Nelson Bueno, enterrado em 2 de setembro de 1972 como não-reclamado. Suzana não podia acreditar. Chorou, o corpo tremendo, os dedos entrelaçados aos de Iara.

“Que canalhas”, Suzana pensava. Havia um modus operandi ali. Era uma estratégia, uma ocultação proposital. Enterravam com o nome falso para dificultar a localização, ela percebeu. Se pais, mães e irmãos raramente sabiam os codinomes usados pelos militantes na clandestinidade, como poderiam encontrá-los?

A descoberta de Luiz Eurico era especialmente alvissareira porque se tratava de um desaparecido, de alguém sobre quem não havia nenhum registro de óbito, nenhuma versão falsa de tiroteio com a polícia nem nada. Nada que eles conhecessem. Foi o início um trabalho sistemático de busca por desaparecidos naquele cemitério e em outros. Numa primeira fase, por meio dos nomes reais. Em seguida, tentando resgatar os codinomes e repetindo as buscas nos livros e nas sepulturas.

Àquela altura, meados de 1979, algumas vítimas da repressão enterradas sem o conhecimento da família já tinham sido localizadas no Cemitério Dom Bosco, com base nos atestados de óbito e nos livros de entrada. Foi o caso de Alexandre Vannucchi Leme e de Joaquim Seixas. Agora, a atuação de Suzana, Ivan e outros familiares seria decisiva para que se localizassem, em Perus, as sepulturas de desaparecidos como Antonio Carlos Bicalho Lana, Sônia Moraes Angel Jones, Antônio Benetazzo e Pedro Pomar, entre outros.

Iara voltou para o Rio. Ivan e Suzana, que moravam em Porto Alegre naquela época, permaneceram em São Paulo por mais alguns dias, mergulhados na busca. Faziam anotações, cruzavam dados, procuravam outros familiares para conciliar as datas e pedir mais informações. Quando a Câmara dos Deputados anunciou que o projeto da Anistia protocolado pelo governo seria submetido ao plenário em 22 de agosto, familiares engajados na campanha por uma anistia ampla, geral e irrestrita decidiram aproveitar a ocasião para denunciar a descoberta daqueles corpos. Era como se buscassem escancarar o que era somente sussurrado. “Enquanto vocês vêm com essa anistia pela metade e se dizem dispostos a dar aos familiares esses atestados de morte presumida, nós estamos aqui para mostrar que não tem morte presumida nenhuma, que a morte é evidente e está documentada, que o Estado perseguiu, torturou e matou nossos entes queridos”.

Diante das câmeras da TV e das equipes de reportagem dos jornais, Suzana revelou que Luiz Eurico e Dênis Casemiro tinham sido encontrados num cemitério em São Paulo. Os desaparecidos não estavam vivos passeando por aí, como Figueiredo e outros políticos da situação costumavam sugerir em diversas declarações. Eles estavam mortos e tinham sido enterrados com dados adulterados para dificultar a localização. “Eu encontrei meu desaparecido e ele está morto”, Suzana dizia. E contava detalhes sobre os dois casos. Luiz Eurico, enterrado como Nelson Bueno. Dênis Casemiro, um rapaz branco de 25 anos, enterrado como se fosse um homem negro de 50.

Foi uma manifestação e tanto em Brasília, a maior manifestação de familiares de mortos e desaparecidos políticos que o Brasil já tinha visto. Saíram ônibus fretados de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte e de Goiás. Teotônio Vilela, senador pelo MDB, foi quem articulou a entrada daquela turma e ajudou a montar o circo no salão verde da Câmara. Familiares, sobretudo mães, empunhavam retratos e faixas com os rostos dos filhos desaparecidos. “Gente, mas eles eram tão jovens”, comentou um deputado de Pernambuco ao olhar aqueles retratos.

O projeto de lei do Governo acabou aprovado, pela minúscula diferença de cinco votos (206 x 201), e a anistia pôde ser promulgada dali a seis dias, em 28 de agosto. Não era a anistia ampla, geral e irrestrita defendida pelos familiares de mortos e desaparecidos e pela maioria dos ex-presos políticos, ora engajados em denunciar as práticas de tortura, dar nome aos torturadores e caracterizá-los como criminosos. A lei da anistia, como acabou sendo interpretada, garantiu a impunidade para esses assassinos e toda a cadeia de comando do sistema repressivo, ao mesmo tempo em que manteve as penas impostas por “crimes de sangue” – somente quando praticados pelos opositores da ditadura. Apesar de todas essas limitações, a anistia representou a volta dos exilados, a libertação dos presos e uma etapa fundamental no processo de redemocratização.

A experiência de ir a Brasília e revelar publicamente a descoberta do paradeiro de Luiz Eurico e Dênis Casemiro, por sua vez, trouxe uma visibilidade inédita para o tema dos desaparecidos políticos. Na semana seguinte, a localização da sepultura de Luiz Eurico, no cemitério de Perus, rendeu matéria de capa da revista IstoÉ. “Aqui está enterrado um desaparecido”, dizia a manchete.

E os outros desaparecidos? Restava solucionar o maior dos mistérios: qual o paradeiro daqueles que, segundo os livros de registros, tinham sido exumados e não foram reinumados em lugar nenhum?

***

Toninho estava obcecado. Para ele, era uma espécie de oráculo de esfinge, um “decifra-me ou te devoro”. A todos os sepultadores que haviam entrado no cemitério antes dele, Toninho repetia a mesma pergunta:

— O que vocês fizeram com os corpos que foram exumados das quadras 1 e 2?

Ninguém respondia.

Toninho perscrutava as páginas daqueles livros de capa preta e fazia contas. Eram muitas exumações. Chegou ao número aproximado de 1.500 pessoas cujas ossadas tinham sido exumadas ao longo de 1975 e das quais não havia qualquer informação sobre reinumação. Toninho entendeu que havia sido feita uma exumação em massa, um ano antes de sua nomeação como administrador do cemitério. Entendeu também que eram exumações regulamentares, autorizadas pela lei municipal que estabelecia o tempo mínimo a partir do qual a municipalidade poderia exumar as ossadas que não fossem retiradas pelas famílias a fim de abrir espaço para novos sepultamentos. O que ele não conseguia entender é por que os corpos não tinham sido reinumados no mesmo local, como de praxe.

O cemitério era novo, havia terra de sobra para fazer o afundamento da sepultura, ou seja, enterrar as ossadas em sacos menores, embaixo da terra, no mesmo local de onde tinham sido exumadas, permitindo que o espaço fosse ocupado por um novo caixão. Ele já havia feito testes, escavado sob outras sepulturas, e nada. O caminho mais simples, previsto no regulamento do próprio serviço funerário, indicava a reinumação no mesmo local e somente se houvesse necessidade de espaço. Nada disso se verificava no Cemitério Dom Bosco, menos ainda em 1975, apenas quatro anos após a inauguração.

Toninho insistia, cobrava os colegas, voltava sempre à mesma pergunta, batia na mesma tecla, como um disco riscado.

— Onde estão as ossadas?

Ninguém respondia.

Toninho estava convencido de que em algum lugar daquele cemitério havia uma vala clandestina, um buraco onde aquela quantidade monstruosa de ossos fora enterrada com ordens expressas para que nada fosse registrado. “Como eu posso administrar um cemitério com uma bomba dessas?”, ele pensava. “Qualquer hora descobrem e a bomba vai estourar no meu colo; vão dizer que fui eu que sumi com esses ossos”.

Para os sepultadores que conheciam o destino das ossadas, o medo era o mesmo. “Se essa notícia estoura, vou perder o emprego e também a aposentadoria”, temiam.

Virava e mexia, Toninho retomava a ladainha de sempre. Às vezes na hora do almoço, às vezes à noite, tomando cachaça.

— Ih, lá vem você com esse assunto de novo!

— Você não cansa, não? Puta cara chato!

— Deixa essa história pra lá!

Toninho deixava pra lá. Depois voltava. E punha-se a jogar verde:

— Tá lá embaixo, perto do Pinheirinho? Tá do lado de fora, no estacionamento? Tá no barrocão, junto com aquele chimpanzé que morreu no circo e foi enterrado aqui?

Com o tempo, Toninho resolveu escolher seu alvo. Para enterrar tanta gente, ele pensou, só mesmo com a retroescavadeira. O único operador de máquina ali era o Pedro.

Uma noite, sozinho com o Pedro, já depois da terceira ou quarta dose, Toninho tocou mais uma vez no assunto. O amigo perdeu a paciência.

— Você fica numa teimosia com esses terroristas — Pedro perdeu a paciência. — Eles estão num buraco lá na área do cruzeiro.

Agora, a obsessão de Toninho não era mais confirmar a existência do buraco, mas por encontrá-lo. Morando no próprio cemitério, como um caseiro, Toninho saía de casa à noite para prospectar a área do cruzeiro. Ia para lá munido com uma sonda, um ferro com mais de três metros de comprimento, e punha-se a espetar o solo. Começou no centro da área. Espetou aqui, espetou ali e nada. Outra noite, tentou na região mais abaixo, próxima à rua que dividia a área do cruzeiro da quadra 1. Nada. Pôs-se, então, a investigar junto ao barranco. Uma noite, às vésperas da anistia, o ferro entrou na terra e quase sumiu. Entrou inteiro, sem esforço.

— É aqui!

 

Leia no próximo capítulo: Vereadores fecham o cerco. De quem partiu a ordem para ocultar as ossadas num buraco? O plano original era construir um crematório e incinerar os cadáveres. Um arquiteto comunista é chamado às pressas para construir um monumento.