Movimento estudantil

Período
1964-1975

Esta sequência didática tem como objetivo principal reconhecer o jovem estudante como sujeito histórico e protagonista de lutas por transformações políticas e sociais. As atividades são apresentadas para que os estudantes possam conhecer a atuação do movimento estudantil durante o período da ditadura civil-militar brasileira, referindo-se tanto aos grupos de contestação ao regime, quanto àqueles que o defenderam. Destacamos também as principais estratégias de atuação dos grupos estudantis que lutaram contra a ditadura e suas ações repressivas, além de, por meio da história de alguns militantes, procurar compreender as estratégias de repressão utilizadas pelo Estado autoritário.
O recorte temporal escolhido privilegia a atuação do movimento estudantil a partir do golpe, quando suas organizações foram atacadas pelo governo e passaram a agir na clandestinidade. Destacamos as principais ações de resistência desde a organização de passeatas ao engajamento na luta armada. Incluímos também o recrudescimento das perseguições e da repressão com o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em 1968, até o ressurgimento da resistência estudantil em meados da década de 1970.

Orientações gerais
– Trabalhe com os documentos históricos indicados, indagando quem são os autores e que ideias defendem naquele contexto específico. A interpretação de um documento histórico depende de uma análise crítica, já que ele só pode ser compreendido à luz do contexto e dos conflitos postos para os sujeitos daquele período.

Produto final: Elaboração de um painel com imagens, desenhos, e escritos sobre a luta e os ideais da juventude na ditadura e atualmente.

Para o professor

Leituras
VALLE, Maria Ribeiro do. 1968 – O diálogo e a violência. Campinas: Unicamp, 1999.
SANTOS, Jordana de Souza. “A repressão ao movimento estudantil na ditadura militar”. Revista Aurora. Ano III, n. 5, dez. 1999.
JAKOBSKIND, Mário Augusto. “Resistir, resistir, resistir”. In: Revista Caros Amigos. Especial Golpe, 50 anos. n. 67, abril 2014.

Filme
O ano em que meus pais saíram de férias. Brasil. Dir. Cao Hamburguer, 2006, 110 min.
A obra narra a história de um garoto, cujos pais são perseguidos políticos na década de 1960, e que precisa ir morar com o avô, entrando em contato com toda a turbulência da época, inclusive o movimento estudantil.


Etapas

1. Sondagem inicial
Para introduzir o tema do movimento estudantil, discuta com os alunos a finalidade dos grêmios estudantis. Se existir algum tipo de organização estudantil na escola vale uma conversa sobre a participação deles nela.
Discuta com eles que, além de pensar intervenções nas unidades escolares, a atuação dos grêmios está vinculada a um projeto de educação e a um projeto de sociedade. Durante o golpe civil-militar, as organizações estudantis sofreram ataques e perseguições. Esse foi o caso da União Nacional dos Estudantes (UNE) e das União Estadual de Estudantes (UEE), que, com a Lei Suplicy de Lacerda, de 1964, foram postas na ilegalidade, atuando apenas na clandestinidade. Os diretórios, centros acadêmicos e grêmios estudantis foram submetidos e controlados pelo MEC.
Peça que os alunos observem este cartaz criado em 1968, que pode ser encontrado no portal:
Que articulação pode ser feita entre a imagem e os dizeres do cartaz? Analise o contexto em que ele foi produzido: em que lugar, quem seria esse jovem, por que as palavras estão escritas em espanhol, reivindicando “Liberdade para o Brasil”?
O que os alunos pensam sobre a perseguição às organizações estudantis durante a ditadura? Por que esses jovens eram perseguidos? Em que medida as ideias dessa juventude ameaçavam o governo?

2. Leitura e análise de biografias
Divida a sala em grupos para realizar o trabalho de leitura e análise de histórias de vida de estudantes que se engajaram na resistência à ditadura.
Cada grupo deverá ler e analisar duas biografias e comparar as duas histórias, respondendo às perguntas:
* O que essas pessoas têm em comum?
* Quais estratégias utilizaram para lutar contra a ditadura?
* Como o governo civil-militar agiu com cada uma delas?

Destacamos alguns elementos que podem ser apreendidos na leitura de cada biografia, a fim de subsidiar as reflexões:
* Edson Luís de Lima Souto – Permite conhecer reivindicações do movimento estudantil secundarista no Rio de Janeiro, em 1968, a repressão por parte do governo, a repercussão nacional do assassinato do jovem que ocasionou ondas de protestos e críticas ao regime militar em diferentes partes do país;
* Alexandre Vannucchi Leme – Relaciona-se a uma das formas de resistência estudantil: o engajamento em movimentos de luta armada contra a ditadura. Alexandre fazia parte do Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo (DCE-USP), entidade que não se ligava à luta armada, porém seus diretores tinham posições políticas pessoais que os vincularam à luta armada. Alexandre pertencia à Ação Libertadora Nacional (ALN). Analisando sua história, descortinam-se as estratégias de repressão por parte do Estado que se utilizava de tortura e outras formas de violação dos direitos humanos. Também é possível identificar as tentativas do Estado autoritário de dissimular suas práticas efetivas de repressão, alterando a causa da morte dos presos políticos, e ainda a ocultação dos corpos. Permite identificar também, o papel da Comissão Nacional da Verdade na luta por justiça, responsabilizando o Estado de exceção e seus atores sociais pelos crimes cometidos.
* Aurora do Nascimento Furtado – Além do que já foi exposto anteriormente, como a truculência do governo, a violação dos direitos humanos, a dissimulação da causa mortis, permite reconhecer o engajamento das mulheres na luta armada.
* Honestino Guimarães Monteiro – Permite conhecer o histórico da resistência à ditadura em Goiás e no Distrito Federal; a intensificação das perseguições aos críticos do governo após o AI-5, obrigando-os a viver na clandestinidade; as violações dos direitos humanos nesse período histórico, que transformaram Honestino e tantos outros opositores do regime em desaparecidos políticos, negando a eles e seus familiares o direito à vida e à dignidade. Permite identificar também o papel da Comissão da Verdade na luta por justiça, responsabilizando o Estado de exceção e seus atores sociais pelos crimes cometidos. O atestado de óbito de Honestino foi retificado, em abril de 2014, responsabilizando o Estado por seu desaparecimento e sua morte.
* José Dirceu de Oliveira e Silva – Permite conhecer algumas das entidades do movimento estudantil universitário nas instâncias nacionais, estaduais e municipais, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Estadual dos Estudantes (UEE), a União Metropolitana dos Estudantes (UME); identificar um evento com relevância nacional para o movimento estudantil, o 30º Congresso da UNE, de 1968, em Ibiúna, no auge da repressão do regime militar, no qual centenas de militantes foram presos. Ler o início da matéria do jornal Folha de São Paulo, de 13 de outubro de 1968, “Congresso da UNE: todos presos

3. Análise de processos e documentos oficiais sobre os estudantes
Solicite que os alunos pesquisem no portal, no item Marcos da Ditadura, notícias sobre os militantes estudados e links complementares que ampliem o conteúdo de suas biografias. Em alguns casos, é possível ter acesso ao processo oficial da prisão, ou ainda a trechos de entrevistas com militares envolvidos nas prisões, vídeos com imagens da época, entre outros materiais.
A análise desses registros pode ser norteada pelas seguintes questões:
* Como o Estado via esses estudantes?
* Quais palavras são utilizadas para defini-los?
* Quais ações foram planejadas pelo Estado para combatê-los?
Organize um debate com a classe para socializar as novas descobertas feitas sobre a história de vida desses estudantes. Peça que eles reflitam também, fazendo paralelos e comparações com a atuação da repressão na atualidade. Por exemplo, Alexandre Vanucchi Leme é chamado de “terrorista” e Aurora do Nascimento Furtado, segundo o general Fiuza, teria sido presa e assassinada brutalmente porque os militares julgaram que ela seria uma “traficante”.
Durante a ditadura militar, a construção da noção daqueles que seriam “inimigos” da nação, da ordem e do progresso corroborou com a desumanização dessas pessoas, o que sustentou as inúmeras violações dos direitos humanos promovidas pela ditadura.
Ainda hoje, esse legado parece persistir na sociedade brasileira, justificando a perseguição e violação de direitos, principalmente da população mais vulnerável, marginalizada e estigmatizada por sua cor e condição social. Lembre-os o caso do pedreiro Amarildo, em 2013, ou os “crimes de maio” de 2006, em que diversos jovens foram assassinados de forma arbitrária por policiais militares após os supostos ataques do PCC, em São Paulo, entre outros.
Sugerimos a leitura da entrevista com Orlando Zaccone, delegado, doutor em ciência política pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que estudou a forma que o Estado criou para eliminar quem é considerado um inimigo da sociedade. Nessa entrevista, ele fala sobre violência da sociedade, a herança de regimes ditatoriais e as UPP no Rio de Janeiro.  Segundo ele: “A ditadura vai legitimar a ideia do inimigo interno. Passa a ser uma política de segurança.”

4. Panorama sobre os principais acontecimentos ligados ao movimento estudantil durante a ditadura: análise de linha do tempo
Solicite aos alunos que acessem a linha do tempo “Descomemoração do golpe”, da União Nacional dos Estudantes (UNE), que tece um panorama sobre as perseguições e os principais ataques às entidades estudantis universitárias, a institucionalização da ditadura, a resistência ao regime e a repressão.
Explique o que é a UNE e o porquê de a linha do tempo receber o nome de “descomemoração” do golpe. Também lembre que a construção de uma linha do tempo sempre é uma seleção de acontecimentos marcantes a partir de um determinado ponto de vista. No caso, a UNE foi uma entidade estudantil engajada na luta contra o Estado autoritário instaurado em 1964.
Eles devem também pesquisar o que é a UNE e reconhecer o histórico de lutas dessa organização que é anterior à ditadura e se estende até os dias de hoje.
Peça que naveguem de acordo com o que lhes despertar maior interesse, observando sempre quais pessoas estão sendo retratadas na imagem de fundo, o que elas estão fazendo, o que dizem os cartazes, e que elenquem o que mais lhes chamou atenção nesse primeiro contato, para socializarem no grupo.
Em seguida, peça que eles explorem a linha do tempo, localizando acontecimentos relacionados às biografias estudadas. Solicite que naveguem pelos acontecimentos referentes ao ano de 1968 na linha do tempo de “Descomemoração do Golpe” e no link Marcos da Ditadura do portal.
O ano de 1968 inclui vários movimentos relevantes de protesto contra a ditadura e foi marcado pela mobilização política estudantil em vários países. Alguns acontecimentos tiveram grande repercussão como o assassinato do estudante Edson Luís, que gerou uma onda de protestos em todo o país , a passeata dos 100 mil, o ataque ao elenco da peça Roda Viva, o Ato Institucional Nº 5, entre outros.
Proponha a análise do documentário A Batalha da Maria Antônia.
A discussão sobre esse acontecimento, e também sobre o ataque ao elenco da peça Roda Viva, permitirá que os alunos conheçam organizações estudantis alinhadas a movimentos de extrema direita, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que defendiam radicalmente o Estado autoritário e perseguiam estudantes, artistas, intelectuais, enfim, todos os setores que se opunham ao regime militar.
Em um esforço de análise, os alunos devem refletir: qual a contribuição do movimento estudantil na resistência contra a ditadura?
É importante discutir, já que a atividade está centrada entre os anos de 1964 a 1975, que essa resistência foi relevante e agregou outros movimentos de contestação, feriu a imagem do Estado autoritário brasileiro não apenas dentro do país, mas internacionalmente. Há também um fortalecimento do movimento estudantil em 1977, no momento em que recrudesce a luta em prol da democratização, após um longo período de intensa repressão. Em 1984, o movimento das Diretas Já pôde reunir milhões de pessoas no Brasil inteiro, que reivindicavam eleições diretas para presidente. Todos os movimentos de protesto e resistência anteriores foram fundamentais para o processo de reabertura democrática em 1985.

5. Análise dos movimentos da juventude no Brasil atual
Peça aos alunos que reflitam sobre a vida dos jovens que conheceram por meio da sequência didática, e de tantas outras pessoas que se mobilizaram por ideais de liberdade, democracia, justiça social, e façam um paralelo com a sociedade atual.
A juventude brasileira ainda sonha com transformação social e luta por isso? Há motivos para indignações? Solicite que respondam a essas questões e socializem no grande grupo.
Ainda em comparação com a ditadura civil-militar, peça que os alunos reflitam se, atualmente, em nossa sociedade democrática, as reivindicações juvenis são aceitas e acolhidas sem repressão. Há perseguições aos jovens, no Brasil, atualmente?
O educador pode pensar além dos temas já citados anteriormente, em outros para provocar o debate. Sugerimos o texto “Das ruas aos shoppings, as mesmas respostas à juventude”, a respeito da repressão violenta às jornadas de junho de 2013 e aos “rolezinhos”, iniciados também no final do mesmo ano, que demonstraram o preconceito, a intolerância e a perseguição da juventude pobre e negra no Brasil.

6. Finalização
Como esforço de síntese desta sequência de atividades, com o intuito de organizar o conhecimento construído sobre o movimento estudantil durante a ditadura e da juventude como agente de contestação/transformação social, sugerimos a atividade a seguir:

– Produção de um painel que possa apresentar um histórico de ideais que moveram a juventude no Brasil a lutar por transformações, tanto na ditadura como atualmente, expressando as reivindicações, sonhos e ideais dos alunos. É importante que o painel seja composto por imagens, desenhos, palavras de ordem e que as habilidades artísticas dos alunos possam ser aproveitadas. Pode-se pensar no estêncil e em outras formas de grafite como linguagens possíveis a serem utilizadas nessa produção.  Crie um espaço para que o painel fique exposto em um lugar em que possa ser apreciado e observado por outras pessoas.