Experimentação artística e estratégias estéticas de resistência

Experimentação artística e estratégias estéticas de resistência

Diante da intensificação da censura e da violência política durante os anos de chumbo, uma geração de artistas brasileiros desenvolveu estratégias estéticas capazes de resistir ao autoritarismo sem necessariamente se alinhar à propaganda panfletária. Esses artistas operaram a partir da experimentação com novos suportes, da ação direta nos espaços urbanos e da recusa aos circuitos tradicionais da arte. Assim, constituíram um campo de atuação que aliava invenção formal e crítica política.

Ao não se aterem a mensagens óbvias e diretas em suas criações, os artistas plásticos brasileiros transformaram a vanguarda e a própria compreensão do engajamento político frente ao regime militar. O sentido era a experimentação e a busca pela liberdade. Nesse sentido, a arte brasileira, mesmo sob um regime repressivo, tornou-se um vetor de dissenso e intervenção simbólica. Isso se deu, como aponta Claudia Calirman (2013), pela emergência de práticas conceituais, efêmeras e não convencionais. Muitas vezes, a ineficácia da censura e a fluidez das linguagens vanguardistas abriram brechas para ações questionadoras e insurgentes, desafiando o conservadorismo do regime e a caretice dos olhares convencionais. A resistência à ditadura, nesse campo, começava pela reeducação do olhar.

Os artistas experimentaram radicalmente outras linguagens, como foi a chamada “arte conceitual”. O que importava era o conceito, a leitura que o artista fazia da realidade. Um exemplo disso foi a intervenção na série de Cildo Meireles “Inserções em Circuitos Ideológicos”, que incluiu ações como o Projeto Coca-Cola, em que garrafas reutilizadas do refrigerante traziam inscrições políticas. Ou, ainda, no Projeto Cédula, o artista carimbou notas de dinheiro com a pergunta “Quem matou Herzog?”, em alusão à morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI em 1975. Ou, ainda, a obra de Rubens Gerchman, que colocou enormes letras expostas na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, formando a palavra “Lute”, chamando o público para a luta contra a ditadura.

Mesmo com o endurecimento da censura após o AI-5, as vanguardas artísticas continuaram a revolucionar os seus códigos. O uso do corpo como linguagem artística transformou-se em um gesto potente de contestação. Antonio Manuel, por exemplo, ao apresentar-se nu no Salão Nacional de Arte Moderna em 1970, deslocou a noção de obra para o corpo do artista, rompendo as convenções institucionais, de costumes e afirmando uma presença política indomável e contestatória.Já Artur Barrio realizou intervenções no espaço público para denunciar as torturas do regime. Ele criou as “Trouxas Ensanguentadas” (1970), espalhando pelas ruas do Rio de Janeiro e na beira de um rio em Belo Horizonte pacotes recheados de carne, sangue e ossos, simulando cadáveres descartados, como metáforas da repressão, tortura e desaparecimento ocorridos durante a ditadura.

Artur Barrio usou materiais orgânicos em espaços urbanos para denunciar a violência e a brutalidade dos desaparecimentos e torturas durante a ditadura.

Outro exemplo representativo foi “Tropicália” (1967), de Hélio Oiticica, que, aliás, vai inspirar o movimento tropicalista para além das artes visuais. A obra trata-se de uma instalação imersiva, contendo um ambiente labiríntico, construído com materiais cotidianos como areia, pedras, tecidos coloridos, plantas tropicais, estruturas de madeira e elementos arquitetônicos que remetem a barracos e construções populares. O ambiente caótico, a mistura de elementos populares e eruditos revelam a mistura de experiência multissensorial com posicionamento político contra os padrões impostos pelas instituições artísticas e pela repressão política. O trabalho se tornou um dos mais emblemáticos da arte brasileira do século XX. Outras obras do artista dessa fase, como Bandeira (1968), também abordam temas como marginalidade, identidade nacional e resistência cultural.

Portanto, a transgressão das ações desses artistas estava ancorada em uma concepção de arte como experiência, algo que se conecta com as transformações nas artes plásticas no plano internacional. No entanto, no Brasil e em parte significativa da América Latina, essa perspectiva se aliava às questões de resistência política aos regimes autoritários.

Nesse contexto, a colaboração, o gesto efêmero e a coletividade floresciam no processo de criação e nas formas de difusão das obras. Ao recusarem a monumentalidade e a permanência, esses artistas também questionavam a lógica mercantil que tentava capturar a arte como produto. Por meio de estratégias metafóricas, enfrentavam a repressão e desafiavam a vigilância, promovendo atos de resistência e criando frestas de liberdade estética e denúncia política em meio à opressão dos anos de chumbo.

Tropicália

Trata-se de uma obra fundamental da arte brasileira do período, constituída por um labirinto de madeira forrado com areia e pedras, que, ao ser percorrido pelo espectador, colocava-o em contato sensorial com diversos elementos naturais e culturais do Brasil, como plantas tropicais e araras nativas, até um televisor ligado ao fim do percurso. A obra acabaria dando nome a todo um movimento cultural, o tropicalismo, que abarcou diversas expressões artísticas, e que teve na música produzida naquela mesma época por Gilberto Gil e Caetano Veloso a sua expressão mais conhecida. Também integrou o manifesto da “Nova Objetividade Brasileira”.

Trouxas Ensanguentadas

A obra “Trouxas Ensanguentadas” de Artur Barrio espalhou por espaços do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte dezenas de pacotes de pano manchados com sangue e recheados com carne e ossos, dando a impressão de que se tratavam de corpos ensanguentados. As pessoas, ao se depararem com as “Trouxas Ensanguentadas”, eram confrontadas com a brutalidade da repressão, a denúncia de pessoas desaparecidas no regime e a violência política. Barrio observava de longe as reações do público, deixando que a obra provocasse medo, dúvida e indignação.

Lute

Com letras gigantes formando a palavra “Lute”, Gerchman interveio no espaço urbano carioca, instalando a obra na Avenida Rio Branco. A obra é representativa do neoconcretismo brasileiro e sua intervenção no espaço urbano se tornou um ícone de resistência política e experiência de arte pública engajada no Brasil.

Inserções em Circuitos Ideológicos

Cildo Meireles carimbou cédulas de dinheiro com a frase “Quem matou Herzog?”, Cildo Meireles, artista neoconcretista, produziu entre 1970 e 1975 uma série de trabalhos que imprimiam frases consideradas subversivas em cédulas de dinheiro e garrafas de Coca-Cola. Ele retirava os artigos de circulação, interferia sobre eles e os devolvia. O artista carimbou em notas de dinheiro a frase “Quem matou Herzog?”, questionando a versão oficial sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões da ditadura. Essa ação infiltrava mensagens políticas em meios incontroláveis pela censura, atingindo milhares de pessoas e envolvendo o público diretamente com a obra e sua mensagem.

Arte conceitual

O poder da ideia sobre o objeto – Na década de 1970, muitos artistas brasileiros adotaram uma abordagem conceitual, em que a ideia era mais importante que a forma material da obra. Para isso, a arte conceitual utiliza fotos, textos, objetos e vídeos, propondo o uso de objetos cotidianos para provocar reflexões sobre arte, política e sociedade. A arte povera (arte pobre) e o pós-minimalismo influenciaram esse movimento, que buscava cada vez mais desmaterializar o objeto artístico, como a síntese imagem-palavra, valorizando o processo, a anti-forma e a ideia como elementos centrais para ampliar seu alcance crítico Entre os principais nomes estão Cildo Meireles, com suas interferências em cédulas e garrafas de Coca-Cola, Waltércio Caldas e Regina Silveira, que experimentavam novos modos de percepção.

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