A partir do AI-5, decretado em 1968, a censura no Brasil tornou-se ainda mais rigorosa. A vigilância sobre a produção artística se intensificou, resultando no cancelamento de exposições, na proibição de obras e na perseguição de artistas tidos como subversivos. A repressão afetou diretamente o circuito das artes, instaurando um clima de medo e insegurança, mas também provocando respostas e reações criativas a partir de estratégias de resistência.
Vale destacar que episódios de censura a exposições já vinham ocorrendo desde o início do regime militar. Contudo, com o AI-5, a repressão atingiu novos patamares. Um dos episódios mais representativos desse contexto foi a realização da X Bienal de São Paulo, em 1969, que entrou para a história como a “Bienal do Boicote”. Isso ocorreu após a suspensão de uma mostra no MAM-RJ por causa de uma fotografia de Evandro Teixeira que mostrava a queda de um oficial da Força Aérea Brasileira, considerada ofensiva pelas autoridades. Em resposta, artistas brasileiros e estrangeiros promoveram um boicote à Bienal de São Paulo, em protesto contra a censura política.
O episódio teve grande repercussão nacional e internacional. Na ocasião, a crítica de arte Marta Traba, uma das vozes mais influentes da América Latina, demonstrou uma visão pessimista sobre a situação artística e política que estava ocorrendo no Brasil sob a ditadura. A intelectual expressou preocupação com as interferências políticas nas artes e na Bienal durante o regime civil-militar. Países como França, Suécia, Noruega e Alemanha cancelaram oficialmente sua participação. Artistas latino-americanos também aderiram ao protesto, revelando solidariedade à causa democrática. A delegação dos Estados Unidos, após longo debate interno, também se retirou da exposição, em um gesto simbólico.
Com isso, expuseram-se os conflitos e fraturas existentes entre a liberdade artística e a repressão e a censura, provocando artistas a buscarem caminhos alternativos às instituições oficiais. No mesmo impulso, também passaram a explorar novos espaços e linguagens experimentais.
