Milton Nascimento

Quando contrariado, fazia um bico tão peculiar que o tique lhe rendeu o apelido: Bituca. Isso quando ainda era criança, no interior de Minas Gerais. Nascido no Rio de Janeiro, filho de uma empregada doméstica, Milton Nascimento ficara órfão aos dois anos. Lília, uma das filhas da patroa, tinha acabado de se casar e perguntou à avó do garoto se poderia adotá-lo. Logo o menino mudou-se com os novos pais para Três Pontas (MG). A mãe, adivinhe, era professora de música. Milton cresceu num ambiente propício para que, aos 13 anos, fosse crooner de um conjunto de baile, junto com Wagner Tiso.

Embora tenha gravado a primeira canção em 1962 e, em 1964, cantasse em bares de Belo Horizonte um repertório que incluía faixas de sua autoria, foi em 1967 que ele estourou, conquistando o segundo lugar no 2º Festival Internacional da Canção, no Rio. O nome da música? “Travessia“, título roubado de outro mineiro, João Guimarães Rosa, do livro “Grande Sertão: Veredas”.

A canção foi a primeira escrita pelo então repórter Fernando Brant. Como Brant se recusasse a assumir a tarefa, ciente do tamanho do parceiro, Bituca fez o bico de sempre, contrariado. Mas deixou a fita e estipulou um prazo. Semanas depois, Fernando Brant debutava como poeta. “Solto a voz nas estradas / já não quero parar / meu caminho é de pedra / como posso sonhar”. Impressionada com a música, Elis Regina gravou “Travessia” menos de um mês depois do festival. Ela já havia gravado “Canção do Sal” no ano anterior e voltaria a gravar Milton muitas vezes nos anos seguintes, totalizando mais de uma dúzia de canções.

Nos anos 1970, Bituca formaria o grupo Clube da Esquina com amigos de Belo Horizonte: Lô e Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Tavinho Moura, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta. Os dois discos lançados pelo conjunto teriam grande repercussão, tantas eram as inovações de estilo, arranjo e repertório, cuja intenção era misturar cantigas do interior com o som que vinha dos Beatles.

Deles fazem parte algumas das canções mais engajadas de Milton, como “Nada Será Como Antes” (“Que notícias me dão dos amigos? / Que notícias me dão de você?”), “Saídas e Bandeiras Nº 2” (“Andar por avenidas / enfrentando o que não dá mais pé”), “Paisagem da Janela” (“Quando eu falava desses homens sórdidos / quando eu falava desse temporal / você não escutou / você não quis acreditar”) ou “Credo” (“Tenha fé no nosso povo que ele resiste / tenha fé no nosso povo que ele insiste”).

Em 1978, Milton foi o primeiro a gravar “Cálice” com Chico Buarque, tão logo a letra foi liberada. Musicou Drummond, gravou Violeta Parra e, em 1981, compôs a música da Missa dos Quilombos, um importante projeto de cunho político-social feito em parceria com o poeta Pedro Tierra e o bispo Dom Pedro Casaldáliga. Finalmente, Milton tornou-se o compositor mais executado na campanha das Diretas, com duas canções reproduzidas à exaustão nos comícios: “Coração de Estudante” e “Menestrel das Alagoas“, ambas de 1983.