Apesar do que o discurso de extrema-direita cultiva, a ditadura configurou ambiente político altamente propício para o desenvolvimento de práticas corruptas envolvendo agentes empresariais e o fundo público. As razões para o aumento dos casos de irregularidades e ilegalidades envolvendo agentes privados e recursos públicos se devem a três fatores principais. Em primeiro lugar, deve-se considerar que a ditadura cerceou os mecanismos de fiscalização e controle sobre esse tipo de prática. A imprensa foi censurada, a oposição parlamentar e política sofreu com cassações de mandato e perseguições, os mecanismos do sistema de justiça foram mobilizados para os objetivos políticos do regime, e os movimentos sociais e organismos da sociedade civil que fariam as denúncias foram amordaçados pela repressão. Assim, menos casos vinham à tona publicamente nos jornais e nos debates parlamentares nesse período, o que não quer dizer que a corrupção era menor, mas sim que os mecanismos de averiguação e denúncia pública estavam devidamente impedidos de funcionar regularmente.
Além disso, a ditadura ampliou significativamente o fundo público e a arrecadação estatal desde o golpe de 1964. Com as reformas do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), do período Castello Branco (1964-1967), houve uma reforma tributária e a criação de novos impostos, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), além das contribuições compulsórias, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o Programa de Integração Social (PIS) e o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep). A criação desses tributos e contribuições obrigatórias resultou no incremento do fundo público, gerando maior busca pelos interesses empresariais em se apropriar desses recursos, tanto de forma legal como ilegal.Por fim, a ditadura inaugurada com o golpe de 1964 contou com a participação decisiva do empresariado e do setor privado em suas fileiras, compondo altos e médios cargos na administração pública, tanto na gestão direta – em posições na administração regular do Estado – como na indireta – por meio das empresas estatais e autarquias federais, estaduais e municipais. Com isso, esses agentes levaram muitas práticas comuns do setor privado para o seio da administração pública, como o pagamento de propinas e comissões, favorecimento a certos fornecedores, dentre outras irregularidades que passaram a ser rotineiras na gestão estatal (CAMPOS).