Ditaduras e regimes autoritários ocorreram em diversos países da América Latina na segunda metade do século XX, como Argentina, Chile, Uruguai e México. Nesses países, a repressão institucional e a censura à liberdade impactaram profundamente as artes visuais. No entanto, foi possível notar uma crescente movimentação criativa por parte dos artistas, que, em resposta, passaram a utilizar a arte como ferramenta de denúncia, memória e resistência.

O uso de linguagens simbólicas, metafóricas e codificadas foi uma estratégia para evitar perseguições diretas. O risco constante de prisão, exílio ou desaparecimento forçou muitos a criarem mecanismos indiretos de protesto para continuarem a se expressar. Apesar desse ambiente repressivo, as artes visuais também se tornaram um canal de resistência cultural. Muitos artistas se voltaram para elementos das culturas populares e das tradições locais como forma de afirmar identidades coletivas e contestar o projeto autoritário de homogeneização social. Surgiram trabalhos que combinavam denúncia política com valorização da memória, da ancestralidade e das lutas sociais, promovendo uma forte conexão entre arte e vida cotidiana.
O cenário latino-americano evidencia que os regimes autoritários também impulsionaram uma expressiva rede de solidariedade artística internacional. Muitos artistas se viram obrigados a se exilar em países como o Chile. Com isso, intensificaram-se a circulação de artistas na região, as exposições, os apoios no exterior e a visibilidade às denúncias. Algumas iniciativas fortaleceram os vínculos entre artistas e agentes culturais, como o Museu da Solidariedade, concebido pelo crítico de arte brasileiro Mário Pedrosa durante o governo de Salvador Allende, no Chile, no início dos anos 1970.
Outros acontecimentos também simbolizaram essa crescente articulação, como o I Encontro Ibero-Americano de Críticos de Arte e Artistas Plásticos, em Caracas, na Venezuela, em 1978. No mesmo ano, também ocorria a I Bienal Latino-Americana de São Paulo, que indicava esse mesmo desejo de intercâmbio e de superação da situação de boicote ocorrida anos antes. Tais experiências demonstram que, mesmo em tempos difíceis, houve resistência e esforços concretos de integração cultural entre os países da América Latina.
Além das artes visuais, alguns coletivos artísticos e grupos teatrais, como El Galpón (Uruguai), Escambray (Cuba) e CLETA (México), atuaram como ferramentas de educação popular, estímulo à consciência crítica e transformação social.Por fim, muitos artistas passaram a criar obras que lidam com as memórias da ditadura como eixo central de reflexão e denúncia. Essa produção atual evidencia como os ecos do passado seguem ressoando e reafirmando a importância histórica e política da arte. Mais que manifestações estéticas relevantes, esse conjunto de obras e movimentos que surgiram na América Latina em contextos autoritários constitui testemunhos importantes de tempos sombrios, contribuindo para a formação de consciência crítica sobre o período. A arte latino-americana, assim, continua a carregar a marca de uma história de resistência, em que criar se torna um ato de coragem.