Eduardo Collen Leite

Guerrilheiro da luta armada contra a ditadura militar, mais conhecido pelo codinome “Bacuri”, foi o militante que, depois de preso, foi torturado por mais tempo pelos agentes da repressão, passando 109 dias nas mãos de seus algozes, sendo submetido a todo tipo de torturas até ser executado. Bacuri chegou a receber, na cela, um jornal que noticiava sua fuga da prisão. Ele permaneceu preso e incomunicável até sua morte. A versão dos militares é de que ele foi morto num tiroteio após escapar da prisão.

Iniciou sua militância bem jovem, integrando, inicialmente, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), em seguida a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em 1968, e a Rede Democrática (Rede), em 1969. Posteriormente, passou a integrar a direção da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Um dos mais ativos guerrilheiros nas ações armadas urbanas do período, participou dos sequestros do cônsul do Japão, Nobuo Okuchi, em São Paulo, e do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, no Rio de Janeiro, ambos no primeiro semestre de 1970. Depois disso,  Bacuri foi preso no Rio de Janeiro por oficiais do Cenimar, o Centro de Informações da Marinha, em 21 de agosto de 1970.

Entregue pelos militares à equipe do delegado Sérgio Fleury, entre setembro e dezembro de 1970, foi constantemente levado a centros de interrogatórios do DOI-Codi de São Paulo e do Rio de Janeiro, a prisões e casas isoladas e ao presídio da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde fez greve de fome e recusou atendimento médico, sendo brutalmente torturado e interrogado dezenas de vezes, sem nada dizer aos torturadores.

Sua mulher, Denise Crispim, viu-o pela última vez depois de ser retirada da cadeia do Dops , grávida de sete meses, e levada pelos homens de Fleury à delegacia do bairro de Vila Rica, em São Paulo. O marido estava algemado e com hematomas e queimaduras por toda a pele.

Considerado pela repressão como o mais perigoso dos guerrilheiros, foi assassinado em 8 de dezembro de 1970, no Forte dos Andradas, no Guarujá, em São Paulo, logo depois do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, no Rio de Janeiro. Eles o mataram para que não fosse libertado na troca de reféns, não apenas por sua importância, mas também pelo estado físico a que havia sido reduzido pelos torturadores. Bem antes disso, ele já não tinha mais o movimento das pernas por causa das torturas – para as quais era levado arrastado – a que vinha sendo submetido.

Seu corpo, encontrado no litoral de São Sebastião, São Paulo, foi entregue à família num caixão lacrado, na tentativa de esconder o que ele havia sofrido nas mãos dos torturadores. Porém, seus familiares o abriram e se depararam com um Bacuri desfigurado, com orelhas decepadas, inúmeras queimaduras, hematomas, dentes arrancados, olhos vazados, dois tiros no peito e dois na cabeça.

Em junho de 2011, foi lançado o livro “Eduardo Leite, o Bacuri, da jornalista Vanessa Gonçalves, uma biografia de sua vida que se desdobra com mais detalhes em seus 109 dias na mão dos torturadores. Em 2013, a diretora e atriz portuguesa Maria de Medeiros lançou o documentário Repare bem, que resgata a trajetória da ex-companheira de Bacuri, Denise Crispim, e de sua filha Eduarda Ditta Crispim Leite.

Audiência Pública Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” sobre o caso de Eduardo Leite