Capitalismo ou comunismo?

Já imaginou viver num mundo bipolar, dividido entre países capitalistas e comunistas, em constante disputa entre eles? Pois saiba que já foi assim, e não faz muito tempo. E isso teve muita influência sobre o golpe militar e a ditadura no Brasil (e em outros países da América do Sul). Os Estados Unidos apoiaram golpes contra governos eleitos pelo voto e também pressionaram os países a lutar contra o comunismo na região.

Guerra Fria

Quando a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) chegou ao fim, emergiram duas grandes potências militares e econômicas, Estados Unidos e União Soviética, que aproveitaram o vácuo deixado pelos países europeus, devastados pelo conflito no continente. De um lado, o país da América do Norte representava os valores do capitalismo e do livre mercado. De outro, a nação comunista buscava consolidar o modelo socialista, com forte tutela do Estado sobre a sociedade. Ambos procuravam aumentar seu poder militar e estabelecer zonas de influência na Europa, Ásia, África e América Latina.

Não foi à toa que a aliança entre esses dois países não durou muito. Terminada a guerra, derrotados os países fascistas, os embates entre capitalistas e comunistas começaram a surgir. Tinha início, assim, o período que ficou conhecido como “Guerra Fria”, por nunca ter havido um conflito direto entre as duas superpotências. Mas, em muitos lugares do mundo, a guerra entre capitalismo e comunismo foi bem quente.

A partir de 1947, os Estados Unidos adotaram a Doutrina Truman, que recebeu o nome do então presidente estadunidense Harry Truman. Segundo ela, era importante frear a expansão comunista, sobretudo na Europa. Partindo dessa ideia, os EUA resolveram ajudar os países europeus ocidentais a se reconstruir, através do Plano Marshall, que injetou bilhões de dólares no velho continente. O mundo, que mal começava a se recuperar dos horrores da Segunda Guerra, entrava numa nova fase de tensão.

A Guerra Fria foi ao mesmo tempo um conflito ideológico, econômico, científico, cultural e militar. Mesmo sem embates diretos entre as duas superpotências, muitas das guerras civis por independência, sobretudo na Ásia e na África, acabaram se tornando verdadeiras batalhas da Guerra Fria. Cada bloco tentava aumentar, ou pelo menos consolidar, suas áreas de influência. Buscava ter mais armas, mais prestígio entre artistas e intelectuais, mais poder econômico.

Nos anos 1950, as superpotências iniciaram uma corrida armamentista, com ênfase no desenvolvimento de armas nucleares, e Corrida espacialPara desespero dos norte-americanos, em 1961, os russos colocaram um homem no espaço. Era Iuri Gagarin, que, quando olhou a terra lá de cima, esqueceu que era um soldado e libertou sua alma de poeta. “A terra é azul”, foi a primeira frase que o novo herói soviético disse, palavras que se eternizaram por sua simplicidade, contrastando com um momento tão glorioso. Antes dele, o mundo já cultuava outra heroína soviética, a cadelinha Laika, o primeiro ser vivo a orbitar o planeta terrestre numa espaçonave. Laika morreu na missão, mas Gagarin se tornou um herói mundial, para além de todas as diferenças ideológicas. A partir de John F. Kennedy os EUA entraram pra valer na corrida espacial, gastando bilhões de dólares, para conseguir um feito inédito em 1969: colocar um homem na Lua e fincar a bandeira estadunidense em seu solo arenoso. Além dos ganhos em pesquisas científicas na área de astrofísica, balística, mecânica e biologia, a corrida espacial também representava propaganda dos dois sistemas, que competiam para ganhar corações e mentes do mundo. E, atrás dessas glórias e conquistas, havia muito dinheiro e dezenas de mortos em acidentes de trabalho, como explosões de foguetes e quedas malsucedidas. Com a crise do capitalismo e do socialismo nos anos 1970, e a acomodação da Guerra Fria, a corrida espacial deixou de ser prioritária. Os jovens e crianças de hoje já não sonham mais em ser astronautas ou cosmonautas, verdadeiras celebridades da Guerra Fria. , para ver, afinal, quem chegava primeiro na Lua. A propaganda era uma arma muito utilizada pelos respectivos governos, e cada bloco tentava desqualificar o outro. Para os comunistas, o capitalismo era sinônimo de exploração do homem pelo homem e de miséria. Para os capitalistas, o comunismo era sinônimo de opressão do indivíduo pelo Estado.

No ocidente, o anticomunismo se tornou bastante agressivo. Todas as formas de luta contra os comunistas eram consideradas válidas, pois eles eram encarados como uma ameaça à propriedade, à família e à religião cristã. Os setores mais conservadores consideravam que não apenas os comunistas colocavam em risco a ordem social e a moral vigente, mas todos os grupos e indivíduos simpáticos ao socialismo e à luta por justiça social.

Nas décadas de 1940 e 1950, o modelo soviético era considerado uma saída legítima por muitos que acreditavam no socialismo como uma via de superação do subdesenvolvimento, da dependência econômica em relação às potências capitalistas, e da miséria social. A União Soviética parecia ser uma potência econômica, científica e militar insuperável e indestrutível, apesar da falta de liberdade de expressão e de organização dos seus cidadãos, denunciada por muitos de seus críticos.

Como a Guerra Fria mexeu com a América Latina e o Brasil

A América Latina sempre foi marcada por conflitos políticos e sociais entre setores conservadores e progressistas. Havia partidos comunistas espalhados pelo continente desde os anos 1920. Eles procuravam se aliar a outros setores nacionalistas e reformistas, na luta por independência econômica e contra a pobreza que assolava o continente. Os Estados Unidos, sobretudo a partir dos anos 1940, se tornaram a potência mais influente na região, mas, até o começo dos anos 1960, nunca tinham sido confrontados seriamente por nenhum governo latino-americano.

Apesar disso, o anticomunismo e a segurança regional se tornaram mais importantes que a democracia, e não apenas os comunistas eram reprimidos, mas todos os grupos e movimentos mais à esquerda. Os Estados Unidos apoiaram golpes de Estado contra governos eleitos pelo voto, e também pressionaram os governos amigos a reprimir movimentos sociais e sindicatos e a declararem ilegais os partidos comunistas. No Brasil, por exemplo, o Partido Comunista foi proibido em maio de 1947.

Até o final dos anos 1950, a América Latina não era fonte de grandes preocupações para os Estados Unidos, já que os conflitos com os comunistas na Europa e na Ásia eram mais graves. Naquela década, muitos países latino-americanos, como Argentina, Brasil e México, iniciavam uma luta pela industrialização e pela nacionalização da economia. Esse projeto, conhecido como “nacional-desenvolvimentismo”, entrava em conflito com os setores mais conservadores, ligados à econômica agroexportadora, e aos setores que importavam bens industrializados dos EUA e da Europa.

No Brasil, desde o começo dos anos 1950, com a volta de Getúlio Vargas ao poder pelo voto popular, a luta pela nacionalização da economia e pela industrialização foi o centro de uma grande disputa política e ideológica. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), a partir da segunda metade dos anos 1950, se tornou aliado do nacional-desenvolvimentismo como forma de superar a influência estadunidense na região, procurando fazer alianças com os setores nacionalistas.

Mas a Guerra Fria, que já dividia o mundo desde o final dos anos 1940, ainda não havia chegado pra valer na América Latina. Isso começou a mudar com o sucesso da Revolução Cubana, em 1959, que deixou o governo dos Estados Unidos de cabelo em pé. A ousadia da pequena ilha caribenha de desafiar os interesses estadunidenses e se aliar aos soviéticos a partir de 1961, como parte da sua virada para o socialismo, mudou todo o panorama geopolítico do continente.

E como o Brasil entra nessa história?

Em março de 1953, a eclosão de uma das maiores greves operárias da história do Brasil, com um papel de destaque do Partido Comunista, deu início a um processo de guinada à esquerda do governo Vargas. Apoiado no voto operário, ele temeu perder o controle dessa classe, vitimada sobretudo pela alta inflação que corroía os salários. A partir de junho, o presidente levou a cabo uma reforma ministerial que abria caminho para uma política nacionalista mais clara. Para se reaproximar da classe trabalhadora, nomeou João Goulart, um jovem político do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), para o Ministério do Trabalho.

Em fevereiro de 1954, para alegria dos trabalhadores, Goulart propôs o reajuste de 100% do salário mínimo. Os setores conservadores, porém, avaliaram essa medida como demagógica e irresponsável. Alegavam que ela causaria inflação e que se rendia à agitação operária, considerada subversiva. A pressão de setores militares e civis resultou, entre outras coisas, na destituição de Jango e no suicídio de Vargas, diante da iminência de um golpe militar.

Apesar da comoção popular, os setores conservadores pareciam ter vencido. Mas os setores nacionalistas e desenvolvimentistas, com o apoio do Partido Comunista Brasileiro, voltaram ao poder com Juscelino Kubitschek. O governo de JK, do Partido Social Democrático (PSD), ficou conhecido pela construção de Brasília e por seu Plano de Metas, que previa um acelerado crescimento econômico a partir da expansão do setor industrial.

Na segunda metade dos anos 1950, o mundo comunista também parecia estar mudando. No 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), os crimes de Josef Stálin, que tinha governado o país entre 1928 e 1953, foram revelados ao mundo. Descobriu-se que Stálin tinha mandado matar vários inimigos políticos, criando um sistema de campos de prisioneiros conhecido como Gulag.

A partir de 1956, a União Soviética passou a difundir a tese da coexistência pacífica com o bloco ocidental-capitalista, o que facilitou a política de alianças dos vários partidos comunistas sob sua influência. O PCB passou a apoiar a política nacional-desenvolvimentista, até como forma de combater o atraso e a influência estrangeira na economia e na cultura.

Apesar de moderado e conciliador, o governo JK continuou sofrendo oposição dos setores conservadores, reunidos em torno da União Democrática Nacional (UDN). A oposição tentava desestabilizar o governo, especialmente por meio de denúncias de corrupção. Além disso, JK era acusado de ser amigo dos comunistas, já que o PCB apoiava sua política desenvolvimentista. Durante seu governo, o Brasil se tornou um país industrializado, embora continuasse profundamente desigual e com grandes regiões ainda subdesenvolvidas. Mas o que desgastou mesmo o governo junto ao eleitorado foi a inflação do final do seu mandato.

Com base na campanha contra a corrupção e a inflação, Jânio Quadros saiu vitorioso nas eleições de 1960, apoiado pela UDN. Mas como naquela época o voto para vice-presidente era independente, também foi eleito João Goulart, do PTB, que apoiava o governo JK. Com isso, o Brasil entrou num momento político bastante peculiar: com um presidente de direita e um vice mais à esquerda. Estava aberta a porta para a crise.