Memórias da Ditadura

Operários

A ditadura reprimiu fortemente o movimento operário: sindicatos sofreram intervenção estatal, lideranças foram presas e torturadas, a imprensa operária e sindical foi proibida. Mas as greves de proporções históricas organizadas pelo movimento operário, principalmente a partir de 1978, com destaque para os metalúrgicos do ABC paulista, contribuíram significativamente para o crescimento das forças de oposição ao regime e para a mudança do cenário político nacional.

Histórico anterior à ditadura militar

Para falar do movimento operário brasileiro no período da ditadura, é necessário voltar um pouco na história. Ele se desenvolveu de forma autônoma e sem reconhecimento legal até 1930, quando foi criado o Ministério do Trabalho. Em 1931, foi promulgado um decreto, considerado a primeira “lei sindical” do país, que regulamentou os sindicatos das classes patronais e operárias.

No longo período de governo Getúlio Vargas, ao lado de reais benefícios salariais, de condições de trabalho, direitos previdenciários, em 1943, criou-se o que permanece até os dias de hoje: a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A política de Vargas, ao mesmo tempo em que reprimia duramente a militância comunista, fazia intensa propaganda paternalista, estimulando a organização sindical urbana sob controle do Estado, e, assim, conferindo a Vargas uma popularidade sem precedentes. Ele ficou inclusive conhecido como o “pai dos pobres”.

Em 1945, no fim da ditadura Vargas, ele inspirou a criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que arregimentou os setores menos politizados dos trabalhadores, dividindo a influência com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que tinha retornado da clandestinidade com grande prestígio entre as massas trabalhadoras. Mesmo posto na ilegalidade, o PCB continuou a dividir com o PTB nos anos seguintes a influência sobre o movimento operário. Em março de 1953, o partido teve papel dirigente na greve dos 300 mil, que paralisou boa parte dos trabalhadores de São Paulo por cerca de um mês.

Nos primeiros anos da década de 1960, cresceu a participação nos sindicatos e se realizaram grandes greves – uma delas com 400 mil trabalhadores ferroviários, marítimos e portuários parados, exigindo equiparação com os salários dos militares.

O movimento operário se manifestava crescentemente por objetivos políticos. No episódio da renúncia do presidente Jânio Quadros, fez uma greve geral em apoio à posse de João Goulart. Em 1962, foi criado o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), que passou a coordenar as articulações intersindicais (federações, confederações). O CGT atuou em movimentos grevistas importantes, mobilizando grandes massas de trabalhadores e greves políticas de apoio a Jango.

Situação econômica e operários na ditadura

No dia 30 de março de 1964, o CGT advertiu para o perigo de golpe e convocou greve geral para se opor a essa possibilidade. O golpe veio no dia 1º de abril e a greve não aconteceu. Os golpistas fecharam o CGT, seus 17 dirigentes foram presos, torturados nos interrogatórios, e condenados a muitos anos de prisão.

A organização sindical foi fortemente desmantelada: 452 sindicatos ficaram sob intervenção estatal e a imprensa operária e sindical foi proibida. Foi implantado o arrocho salarial, política em que os salários não acompanham a inflação, diminuindo o poder de compra dos trabalhadores.

Somente quatro anos depois o movimento operário apresentou uma reação. Em abril de 1968, 15 mil metalúrgicos de Contagem (MG) entraram em greve com reivindicações salariais, deixando clara a disposição da classe operária mineira. Conseguiram um abono de 10%.

No 1º de maio, na Praça da Sé, em São Paulo, trabalhadores apedrejaram o palanque onde estava o governador imposto pela ditadura, Abreu Sodré, e “pelegos” sindicais, isto é, dirigentes que não representavam a massa de trabalhadores, mas que eram impostos pelo governo para defender os interesses dos patrões.

Em julho do mesmo ano, teve início uma greve dos metalúrgicos de Osasco, organizada pela base, que teve adesão de muitos trabalhadores. Seria uma greve histórica, mas foi imediatamente sufocada pela repressão que não quis nem negociar. Decretaram intervenção no Sindicato de Osasco, invadiram as fábricas e prenderam os grevistas. Foi efêmera a reanimação do movimento operário, que só iria voltar à cena após 1977, no ABC paulista.

A economia cresceu e o número de trabalhadores também. Entre 1960 e 1980 os empregados da indústria de transformação passaram de 2,9 milhões para 8,5 milhões, correspondendo a 20% da população economicamente ativa. Os metalúrgicos foram de 600 mil para 2,7 milhões, concentrados em grandes fábricas modernas, muitas delas estrangeiras, tendo como carro-chefe a indústria automobilística. A maior parte se concentrava no entorno de São Paulo, no ABC (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano). Só uma empresa, a Volkswagen, chegou a ter 45 mil empregados.

Essa nova classe operária, formada em sua maioria por imigrantes vindos da zona rural, não tinha experiência sindical. A ditadura limitou drasticamente a militância nos sindicatos e a organização dos operários começou a se dar via Sociedades de Amigos de Bairro (SABs) e comunidades eclesiais de base (CEBs). Aos poucos se formaram oposições sindicais, atuando nos sindicatos dirigidos por “pelegos”.

Assim, as lutas reivindicativas aconteciam de forma localizada, ocorriam por fábricas, e em geral não chegavam à greve. Recorria-se à “operação tartaruga” – uma diminuição proposital no ritmo de trabalho – e a outros expedientes. Essas ações eram imediatamente reprimidas. Em 1972, a Ford de São Bernardo foi cercada pela PM para impedir uma paralisação do trabalho.

Em 1974, a oposição sindical de São Paulo foi duramente reprimida, com a prisão de 70 de seus militantes. No mesmo ano, os metalúrgicos de São Bernardo fizeram um congresso e denunciaram os elevados níveis de exploração do trabalho (alta rotatividade, aumento do ritmo e da jornada de trabalho e a elevada lucratividade das empresas) e reivindicaram liberdade sindical.

Um relatório do Banco Mundial de 1977 revelou que o governo tinha manipulado a taxa de inflação em 1973-74, o que tinha resultado numa perda salarial de 34%. A campanha pela reposição partiu dos metalúrgicos de São Bernardo, comandada por Luís Inácio da Silva, o Lula, o presidente do sindicato desde 1975. Os trabalhadores não conseguiram a recuperação do salário, mas sua luta ganhou repercussão e estimulou o surgimento de novas lideranças em vários estados, além de projetar Lula no cenário nacional.

Dentro da fábrica, de braços cruzados

Em 12 de maio de 1978, começou a primeira greve. Os trabalhadores da empresa sueca Saab-Scania entraram normalmente na fábrica, mas não trabalharam: cruzaram os braços ao lado das máquinas, reivindicando 20% de aumento salarial. No quarto dia, os trabalhadores aceitaram a proposta da empresa intermediada pelo sindicato, de 20% de aumento para quem recebia até dez salários mínimos, equiparação salarial para trabalho igual, pagamento dos dias parados e redução do trabalho noturno.

Finalizadas as negociações, os operários voltaram ao trabalho. Mas a Scania não cumpriu o acordo e pagou apenas 6,5%, por pressão de outras multinacionais, que antecipavam a ocorrência de outras greves em suas fábricas. A tentativa dos trabalhadores de voltar à greve foi duramente reprimida pela polícia.

Já era tarde, porém, para impedir a maré de reivindicações represadas por tantos anos. O movimento se espalhou. Antes do fim da greve na Scania, já começava a greve na Ford. Seus operários conseguiram 11% de aumento. Os operários da Volkswagen também iniciaram uma paralisação, mas o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) decidiu que a greve era ilegal.

Em vez de se interromper, o movimento se ampliou. Na primeira semana, já eram 60 mil metalúrgicos, de 24 empresas, em três cidades. Na quarta, eram 246 mil grevistas, de 213 empresas, em nove cidades. Em 30 de maio, o sindicato patronal do setor automotivo anunciou a extensão do aumento de 11% para todos os trabalhadores metalúrgicos.

As greves animaram os metalúrgicos de São Paulo. Mobilizados pela oposição sindical, em setembro fizeram uma assembleia gigante que expulsou o presidente pelego, o Joaquinzão, e decretou greve.

Contra a greve, ditadura prende e mata

Em 1979, os sindicatos de metalúrgicos do ABC estavam mais experientes e fizeram um planejamento prévio para a greve. Insistiam na reposição dos 34% e tinham mais um leque de reivindicações. Foram realizadas assembleias gigantescas, históricas, de 60 a 80 mil metalúrgicos no Estádio de futebol de São Bernardo, na Vila Euclides. A greve começou logo antes da posse de João Baptista Figueiredo, o último general-presidente da ditadura.

As fábricas pararam em São Bernardo, Santo André, São Caetano e depois em São José dos Campos e Jundiaí. No quarto dia já eram 170 mil os grevistas. A cada dia a Polícia Militar ia aumentando a repressão, espancando, fazendo numerosas prisões, mas a greve não cedia. Nas negociações, os representantes dos empresários não ofereciam nada de concreto. Em assembleias lotadas, os trabalhadores decidiam continuar parados. “A greve continua!”

No nono dia de greve, a ditadura mostrou sua cara. Colocou sob intervenção os sindicatos de São Bernardo, Santo André e São Caetano, destituindo suas diretorias. Sem a presença de seus líderes, os grevistas se reuniram na praça da prefeitura de São Bernardo e decidiram retomar o sindicato. Uma grande multidão se dirigiu para lá. A sede estava ocupada por soldados da PM, que foram colocados em posição de combate. Mas a multidão era tão grande que envolveu os policiais e os convenceu a se retirar, o que eles fizeram sem sofrer agressões.

As pressões e ameaças da ditadura aumentavam, argumentava-se que o processo de abertura política estaria em risco e que o Exército estaria em vias de intervir violentamente. Muito pressionado pelo governo e por empresários, Lula avaliou que era melhor recuar e, na assembleia seguinte, induziu à aprovação do fim da greve. Chegou-se a um acordo com os empresários e algumas reivindicações foram atendidas.

Em agosto estourou uma grande greve dos operários da construção civil de Belo Horizonte, logo seguida por uma paralisação dos caminhoneiros. Era um movimento espontâneo, radicalizado pela miséria provocada pelos salários arrochados e pela incompetência do sindicato. 50 mil grevistas reunidos no centro de Belo Horizonte, sem direção, colocaram em pânico a população. O movimento enfrentou violenta repressão da PM, ocorrendo por vezes resistência dos operários e batalhas nas ruas. A greve chegou ao fim com razoável proposta de aumento feita pelos patrões, intimidados pela combatividade dos grevistas.

Em outubro de 1979, foram os metalúrgicos de São Paulo, Guarulhos e Osasco que entraram em greve. Comandada pela oposição sindical, essa greve sofreu pesada repressão por parte da PM. Houve até invasão e incêndio de uma igreja onde os dirigentes da greve se reuniam. O líder metalúrgico Santo Dias da Silva foi assassinado por um soldado, causando grande comoção entre os trabalhadores e a sociedade em geral. A greve acabou poucos dias depois.

1980, a greve com Lula preso

Era um período de reanimação geral dos movimentos políticos e das lutas sociais pelo país afora. Após a anistia, reorganizavam-se os partidos, surgia o Partido dos Trabalhadores (PT) e era fundada a Central Única dos Trabalhadores (CUT). A campanha salarial de 1980 dos metalúrgicos de São Bernardo foi preparada com centenas de reuniões e assembleias de até 100 mil pessoas. Foi organizado um Fundo de Greve para receber recursos. Em apoio, muitos setores da sociedade, em especial os estudantes, contribuíram nessa campanha.

Os trabalhadores tinham uma lista de reivindicações: reposição da inflação, mais 15% de produtividade, piso salarial de Cr$12 mil (doze mil cruzeiros, a moeda brasileira na época), estabilidade no emprego, reajuste trimestral, jornada de 40 horas semanais, adicional de 100% nas horas extras, entre outras. Os empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) responderam apenas com 3,5% de produtividade e piso inferior a CR$6 mil.

Em março, uma assembleia declarou a greve que começou sem a necessidade de piquetes, isto é, sem precisar que os trabalhadores que aderiram ao movimento impedissem a entrada dos demais colegas nas fábricas. A greve se estendeu por todo o ABC e por mais 17 cidades do interior de São Paulo.

O governo do general Figueiredo não aceitou a situação e se sobrepôs ao governador Paulo Maluf e à Fiesp, impondo uma intervenção em São Paulo. A ação de repressão chegou a contar com 8 mil soldados, 40 viaturas e 3 helicópteros do Exército, que faziam frequentes voos rasantes sobre as assembleias. O Tribunal Regional do Trabalho, pressionado pelo governo federal, decretou a ilegalidade da greve.

Estava dado o pretexto para a escalada da repressão. Os sindicatos sofreram intervenção e 14 líderes dos trabalhadores foram presos, entre eles Lula, numa ação conjunta entre DOI-Codi, DOPS, Polícia Militar e Polícia Federal. Nos dias seguintes, mais prisões. O estádio da Vila Euclides e a Praça do Paço Municipal foram interditados pelas tropas. Os operários se reuniram na praça da igreja matriz, cercados por PMs armados de fuzis e metralhadoras. Eclodiram choques nas ruas. O governo instruiu a Fiesp a recusar qualquer negociação. A grande imprensa fez uma cobertura hostil e deformada da greve.

No final de abril, a paralisação era de 90% dos trabalhadores em São Bernardo (“furar a greve é trair Lula e os outros companheiros presos”, defendiam). O Fundo de Greve recebia crescente solidariedade, na medida em que a greve se tornava um confronto da classe operária contra a ditadura. O bispo de Santo André, dom Cláudio Hummes, apoiava a greve e coordenou a ajuda dos católicos. Parlamentares formaram uma delegação que fez uma visita de apoio aos grevistas.

O 1º de maio de 1980 se tornou um verdadeiro dia de luta para os trabalhadores. Mais de 100 mil pessoas foram ao largo da matriz, furando o bloqueio policial. Sob grande tensão, os grevistas e seus apoiadores conquistaram a reabertura do estádio e para lá se dirigiram em massa. Após 41 dias, a greve não tinha mais como se sustentar. Apesar dos apoios, faltava comida nas casas dos operários e eles voltaram ao trabalho, prometendo continuar a resistir dentro das fábricas. Lula e seus companheiros deixaram a prisão.

Depois de quase quinze anos de crescimento acelerado, a economia do país recuou: o desemprego rondava a casa dos 7%, em 1983 e 1984, um recorde histórico. Só em janeiro e fevereiro, a indústria paulista tinha demitido mais de 47 mil trabalhadores.

Em 1983, ocorreram novas tensões no setor trabalhista, com o aumento do desemprego. O descontentamento social era grande e já em abril ocorreram manifestações nos estados governados pela oposição.

Em São Paulo, uma passeata de desempregados no bairro de Santo Amaro gerou saques e depredações em várias regiões da cidade, os quais ficariam depois conhecidos como os “saques de abril”. Os tumultos se repetiram por três dias e chegaram ao Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo estadual, que teve sua grade derrubada e seus jardins invadidos. O governador Franco Montoro recebeu líderes dos manifestantes e prometeu adotar medidas contra o desemprego.

No Rio de Janeiro, nos mesmos dias, supermercados, lojas e caminhões foram saqueados e ônibus, apedrejados em bairros diferentes. Ao longo do ano, outras manifestações pontuais desse tipo se repetiram.

Em julho do mesmo ano, uma greve geral contra o arrocho salarial foi organizada e paralisou cerca de três milhões de trabalhadores em todo o Brasil, das mais variadas categorias. Era a primeira greve geral em 19 anos. O governo militar reprimiu duramente o movimento, intervindo em sindicatos, cassando dirigentes e prendendo trabalhadores.

As greves do movimento operário haviam produzido uma vitória política irreversível: a mudança do cenário político nacional, já que as forças de oposição cresceram e a ditadura ficou sem condições de levar adiante seu projeto de institucionalização do regime. As eleições de 1982, com importantes vitórias da oposição, já refletiram essa nova correlação de forças.